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quarta-feira, 17 de junho de 2020

A árvore que existe aqui e ali

Olhou pela janela mais uma vez.  Agora o vento estava bem forte, gostava especialmente destas ocasiões, porque era quando os galhos daquela árvore se moviam mais. Naqueles dias em que se passava mais tempo dentro de casa do que fora, tornara-se um hábito silencioso contempla-la: suas folhas verdes, os pássaros que a povoavam, seu movimento em sincronia com o clima, a chuva que se derramava em cima dela. Gostava mesmo daquela árvore!

Ela compunha uma paisagem interessante. Em meio aos edifícios que circundavam toda aquela área, ela reinava no quintal da única casa que podia se enxergar por ali. Era única, mas não parecia deslocada. Não sabia que tipo de árvore era aquela, nunca se interessou muito por este assunto de plantas, mas ela, de maneira especial, sempre tinha um jeito de captar seu olhar. 

Não era muito familiarizada com árvores porque era alguém que crescera no cenário urbano, casas e prédios, asfalto, concreto, calçadas e passarelas. As plantas eram artigos dos canteiros e jardins, ou das paisagens rurais, que achava bonito, admirava, e olhava de longe. Ao menos neste processo sua relação com aquela árvore seguia o padrão: olhava de longe.

Lembrou-se da maneira que muitas vezes se sentiu ao assistir programas, vídeos e filmes em que se mostravam as maravilhas das paisagens florestais. As cores, os animais, os sons, achava que tudo aquilo era gracioso, mas quase sempre pensava: "É lindo, mas eu não queria estar ali no meio". Tentou imaginar-se subindo aquela árvore que observava do seu apartamento, e riu, concluindo que realmente preferia olha-la dali, ainda mais considerando que nunca havia subido numa árvore daquelas. Será que havia algo errado consigo?

Foi assim que trouxe à memória uma experiência que teve, num momento, há alguns anos atrás, em que comparara aquilo que estava vivendo e meditando com o seguinte cenário: uma rua de concreto que estava com o chão quebrado, embaixo podia-se ver que havia terra e até uma planta sufocada, mas predominava o concreto. Esta imagem a ajudou a refletir sobre si muitas vezes... Gostava do ambiente organizado, plano, bem construído. A terra era bagunçada, sujava as coisas, não tinha muita ordem, as plantas não cresciam uniformemente, não dava para saber para que lado iria cada galho, qual seria o tamanho das folhas. Por isso preferia o concreto. Poderia ser bom quebrar mais o chão e ver o que tinha embaixo? Era difícil quebrar o chão duro, ia fazer sujeira e bagunça, mas talvez valesse a pena!

Era isso! A árvore que enxergava pela janela representava, de certa forma, aquela quebra. É claro que se você considerar a lógica da construção daquela cena, os prédios viriam depois e a árvore é o de mais natural e antigo que existe ali. Mas na sua imagem mental, era o contrário, o natural era o asfalto, e a árvore nascera das brechas do chão quebrado. Ficou imaginando o que poderia haver embaixo de todos aqueles prédios que observava. Será que eram eles realmente a melhor versão daquela paisagem? Será que se fosse de outra forma teria mais beleza, teria mais sentido?

E lá vinha mais dois pássaros pousar em um dos galhos da árvore, eles tinham um canto agradável, eram, em parte, amarelos, mas não sabia nomeá-los, também não tinha conhecimento sobre este assunto. Só gostava de vê-los de longe também. A árvore atraía os passarinhos, ela atraía vida, mesmo na sua imobilidade, ela gerava movimento ao seu redor. Isto era encantador!

Seu movimento não era seu, era do exterior que vinha o vento, a chuva, a poda, que transformavam sua figura. Imaginou que a colaboração da árvore era não se opor ao movimento exterior, talvez se resolvesse se opor à ação do vento, por exemplo, seus galhos quebrariam facilmente! Mas que bobagem pensar nisso, sendo que a árvore obviamente não tem consciência dos movimentos externos que a afetam. Mas existe um movimento não consciente, mas natural e constante, de sua parte: o crescimento. A raiz cresce, a copa cresce, sem muita ordem e cálculo, mas cresce. E ao passo que expande sua raiz, mais forte ela fica. 

Sentiu certo afeto por aquela árvore, e quase invejou algumas de suas características. Como por exemplo o fato de que ela expressava, ao mesmo tempo, firmeza e flexibilidade. A firmeza era mais interna, lá embaixo da terra, com suas raízes fortes;  a flexibilidade mais visível, se manifestava no clima, na poda, no acolhimento dos outros seres. Talvez devesse aprender a ser mais assim. Traçou outros paralelos em sua análise, alguns divertidos, outros absurdos! Riu de si naquela conversa muda com sua amiga. E permaneceu olhando de longe, gostava assim.

Estava feliz porque ela havia sobrevivido em meio àquele ambiente residencial. Uma árvore não era algo com que se envolvia diretamente no seu cotidiano; e mesmo assim, naqueles últimos meses que olhara tantas vezes para ela, percebeu o quanto era agradável sua existência ali, além da moral da ecologia. Enfim, voltou à imagem mental daquele chão quebrado e das pequenas brechas, decidindo-se por investigar o que mais havia ali embaixo...

Passou um tempo e começou a chover, ela ficou lá, como quem sorve a quantidade necessária de água, como quem não se esquiva de todas as agitações contingentes. 

domingo, 3 de maio de 2020

Ordinário. Inusual. Extraordinário. Essencial.


Naquele momento andava pela rua deserta, como estava fazendo já por um tempo. Prestava sempre atenção no movimento, ou na ausência dele. Quase todos os dias, deserto. Alguns carros passavam, uma ou outra pessoa andando carregando uma sacola de supermercado. Era engraçado que quando os olhares se cruzavam, eles eram de desconfiança, um medo ou um certo pesar por estar na rua... Muito estranho! Havia um homem que ficava sempre sentado numa esquina, às vezes acompanhado de uma mulher e uma criança. E o que mais gostava era a pessoa de um dos prédios que tocava piano. Não era possível identificar de onde exatamente vinha o som, mas gostava de imaginar que era uma senhora, tocando o piano bonito da sua sala para espantar a solidão. Pronto! Era este o cenário da nova realidade da cidade, do estado, do país, quase do mundo inteiro. Respirava fundo fazendo sua prece e afirmando, é transitório, vai acabar.

ORDINÁRIO
Nisso viu-se transportada à uma reflexão sobre o ordinário. Era fato que sua vida ordinária já era bem estranha para a maioria das pessoas. Seu ordinário era viver em silêncio durante toda a manhã, celebrar as laudes, a Missa, rezar duas horas. Almoçar com sua grande família, ir ao seu trabalho a tarde e etc. Via muita gente ao longo do dia. Participava frequentemente de eventos que reuniam milhares de pessoas. Planejamentos, reuniões, acompanhamentos. Ouvir os outros, tocar na vida dos outros, interceder pelos outros. Colocar o que sabia a disposição e se dispor a sempre aprender coisas novas. Suspirar e fechar os olhos fazendo uma prece e dizendo: isso tudo me ultrapassa, eu não aguento se eu tomar as rédeas, eu Te deixo no controle, Senhor. Esse era o ordinário, que afinal, nunca foi comum...

INUSUAL
O ordinário a fez pensar no inusual. De repente tudo mudou. Não haviam mais as multidões, os barulhos, o movimento de cada dia. Era um tipo de isolamento, uma medida de segurança, uma imposição das autoridades para a segurança do povo. Uma loucura! Uma situação que causava uma perplexidade e um estranhamento profundos. O inusual empoderado ditava um distanciamento social, criava o deserto na rua já descrita, mexia com o psicológico e com a vida de todo mundo. Era uma sensação de incerteza, uma aflição pelos que estavam em risco. O inusual trouxe muitas ausências: De coisas, pessoas, lugares, do sagrado, do bom hábito. E agora? O contexto empurrou todo mundo para outro mundo onde não havia deserto, onde a barreira do distanciamento físico nunca fora um problema: o continente digital. Todos ficaram mais online do que nunca. Na rede, não havia impedimento de aglomerações. A maneira de comunicar e trabalhar era assim: reunião virtual, home office, video call, mensagens, áudios... E toda a novidade que aparecia! Bom? Ruim? O julgamento fica em segundo plano quando a circunstância não parece permitir outra saída. O inusual parecia ter uma característica sorrateira, que podia transformar boas intenções em armadilhas. Observava e ouvia tantas histórias, as pessoas pareciam mais vulneráveis. Quanto menos mobilidade havia, mais agitação interior parecia haver. Ativismo, desejo de aparentar que estou fazendo muitas coisas, coisas boas. Será? Era um terreno desconhecido, como aqueles de joguinhos de campo minado, em que cada passo exige uma análise para não pisar e "boom". O inusual instaurou-se e ninguém sabia quando ele ia embora. 

Em tempos em que a vida ordinária muda drasticamente e que o inusual assume a situação trazendo soluções paliativas, tentava pensar no bem que saía de toda aquela confusão. Sua primeira conclusão foi: realmente a criatividade é algo belíssimo, que só pode ser profundamente entendida como um reflexo divino: Deus, o criativo por excelência, o Criador. Que belo traço de criatividade Ele deixou em suas criaturas. E para o bem ou para o mal, de fato, criatividade não faltava...

EXTRAORDINÁRIO
Com isso, mergulhou no extraordinário! Ah este era muito presente no seu ordinário. E felizmente, o inusual não o roubou. Pois é! O extraordinário se reinventou. Era uma avalanche de informações e de iniciativas de solidariedade. Eram ações de anúncio de fé, esperança e amor criadas a cada dia. Era muito trabalho, mas de uma forma totalmente diferente. Era como se tudo parasse para que pudesse ser observado e reavaliado. Multiplicavam-se a cada dia as ideias. Crescia a cada dia o desejo de levar o extraordinário, de mostrar que ele estava vivo e operante para aqueles que estavam com o olhar preso o inusual. 

ESSENCIAL
O extraordinário com sua força latente revelava o essencial. Era uma dor estranha, porque existiam muitas complicações vindas daquela situação inusual. É verdade! Mas além dos muros do isolamento, além dos números aterrorizantes, além dos conflitos internos e externos, estava intacto o essencial. Ele é a verdade que não engana, o norte que orienta, a promessa que não falha. Por isso o extraordinário agora era multiplicar formas de comunicar o essencial, porque é Ele a salvação e a chave da sanidade no tempo da crise. O essencial é belo, Ele saiu dos limites de um espaço sagrado, para encher de beleza os lugares de confinamento. O essencial é bom, Ele se compadece e move a compaixão no coração de tantos que dão de si para ajudar o outro. O essencial tomou diferentes formas e formatos, penetrou nas mais variadas redes, multiplicou experiências para que os isolados pudessem estar juntos de alguma forma. Reuniu virtualmente e efetivamente poucos ou muitos para cantar, sorrir, rezar, partilhar, se divertir. O essencial deixou-se captar por lentes de uma câmera, deixou-se reproduzir em pequenas e grandes telas. Uma verdadeira prova de uma graça viva e multifacetada. 

No escuro, na rua vazia, diante das portas trancadas, das notícias ruins, das incertezas do amanhã, dos gemidos de dor, dos suspiros de tensão, de uma sensação de liberdade roubada, de perdas irreparáveis, da ansiedade que ronda tentadora  querendo crescer no coração, o que fazer? Para! Faz sua prece e percebe que a presença e a voz estão ali! Era esta a voz que queria fazer ecoar para todos: O ordinário vai voltar e que seja melhor; o inusual passará e que suas marcas tragam amadurecimento; o extraordinário dinamicamente se esforça para nos ajudar a prosseguir; e o essencial nunca muda, nada pode destruí-lo e Ele prevalecerá. 

Publicação original: https://www.comshalom.org/ordinario-inusual-extraordinario-essencial/


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Sobre um Retorno

Havia passado da meia noite. O carro que haviam pedido pelo aplicativo dava voltas e voltas tentando chegar em sua casa. Isso porque havia um grande trecho de reformas naquela área. Pensou sobre o quanto era engraçado saber onde queria chegar, saber o caminho, mas não conseguir por causa das tantas barreiras... 

Após várias tentativas e rotas corrigidas, chegaram. Respirando fundo pensou: "voltei". E esse retorno fez com que pensasse em tudo que havia acontecido naquela noite. Concluiu que a dinâmica da volta fora conforme o acontecido naquelas últimas horas.

Começou a repassar os fatos na sua cabeça. Tinha ido meio sem vontade, insegura sobre como tudo ia ser. Numa luta consigo mesma para sair de si, ficar no conforto de si. 

Entrou no transporte público fretado, cheio de rostos conhecidos. Olhou pela janela o caminho todo, se questionando por um instante se sua linguagem corporal dizia incisivamente "mantenha distância", mas permaneceu assim... Os olhos miravam, sem muita contemplação, as cenas que passavam pela janela. A cabeça repassava suas preces, num esforço por fazer, pensar algo bom. Acreditando que suas preces pudessem contribuir com o que iria acontecer em poucos minutos.

O momento agradável, só seu, acabou. Chegaram! Mais rostos conhecidos. Cumprimentos e sorrisos. Entraram numa capela pequena para orientações. Pensou que havia passado por ali muitas vezes, mas nunca havia entrado. Foi impactada pelos ícones e figuras que encontrou. Realmente, simples e belo. A beleza da história de um homem fraco, que em suas quedas e voltas, realizou algo grande e bom para muitos. Era Pedro, e esse belo lugar chamava-se Capela São Pedro. Na parede os peixes em alto relevo, de diferentes tamanhos e cores, sugeriam o "mar de gente" que haveria de encontrar naquela noite. Sentiu-se apreensiva, angustiada, temerosa... mas as orientações acabaram e saiu! Era hora de sair!

Comeu um sanduíche que havia preparado mais cedo para esse momento, em pé ao lado daquela capelinha, já vendo um significativo fluxo de pessoas. Eram os peixes...

Saiu acompanhada de dois rostos conhecidos, saíram como quem vai fisgar peixes, mas não é pescador; como quem tem algo valioso a oferecer, mas que a maioria das pessoas não sabe que quer. Dentro de si a loucura de tudo aquilo despertava um misto de incômodo e satisfação. Foi!

O cenário daquele local perto da praia era algo de encher o olhar, completamente! Mas os olhos não se enxiam do que poderia ser considerado 'natural'. Não se ouvia o som do mar, não se contemplava a beleza do céu, não parava-se para sentir a brisa, nem para ver as ondas quebrando na noite. 

Era um festival, fervilhando de gente, principalmente jovens. Via-se no local variadas formas de ser e de se expressar. Havia muitos em situações que não considerava muito positivas... Pensou naquilo que havia trazido para eles, e eles não sabiam. Que loucura! 

Falou com algumas pessoas. A cada conversa um universo, uma opinião, um ponto de vista, digno de respeito e reflexão. Oferecia o que havia trazido, sempre pensando se havia apresentado o que trazia da maneira certa...

A cada cena daqueles que contemplava de longe, a cada interação com aqueles que tratava de perto, muitas perguntas emergiam em seu coração, questões que inspiravam diferentes sentimentos. Sentiu compaixão, sentiu medo, sentiu-se profundamente agraciada, sentiu-se responsável, sentiu esperança, sentiu também temor da ausência dela.

Naquela noite falou sobre relações, sobre perdão, sobre confiar nos outros. Falou sobre estilo de vida, sobre encontrar algo que valesse a pena investir a vida, sobre sorrisos que revelavam alegria autêntica. Falou sobre filosofia, sobre mídias sociais, sobre grandes sonhos que nascem no coração e que podem ser realizados. Falou sobre muitas coisas, sobretudo sobre histórias de vida... da sua e da deles.

Repassando essas memórias lembrou-se, mais uma vez da dinâmica do retorno para casa... Realmente havia sido aquela a regência da noite inteira: saber onde quer chegar, saber o caminho, mas dar voltas e voltas, recalculando rotas, para atingir a meta. 

Lembrou-se também dos peixes em alto relevo naquela parede sacra... Não trazia os peixes nas mãos. Não os trouxe consigo no final da noite. Deu-se conta que deixou mais do que havia trazido. Deixou lá naquele lugar, naquelas conversas, naquelas pessoas: si mesma, deixou os sentimentos que estavam em si naquela ida desconcertante, deixou sua história naquelas palavras dadas aos ouvidos do outro, deixou o tesouro que havia trazido para compartilhar.

Nesse instante, mudou de opinião! Havia sim trazido muita coisa, não trouxe peixes nas mãos, de fato. Mas trouxe histórias no coração, trouxe sentimentos novos, trouxe um tesouro ainda maior do que o que havia levado. Poderia dizer numa frase estranha, mas que fazia muito sentido naquele momento, que 'trouxe na volta o próprio retorno'. Um retorno ao essencial, um retorno cheio de questões dentro de si, que geravam um movimento de vida. 

Que belo retorno, em suas voltas, e até revoltas, cujos caminhos podem ser cheios de obstáculos e mudanças, mas o fim permanece firme. O fim é sua casa, seu lar. O cálculo sobre ter deixado mais ou ter trazido mais, perdeu a importância. Só desejou não se esquecer daquela experiência, desejou não esquecer que era sempre preciso retornar. Retornar para ir cada vez mais longe.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

DJ

Estava numa convenção da qual deveria participar. Hipoteticamente era uma oportunidade de formação e aprendizagem. Entre palestras, painéis e workshops o dia terminava naquele coquetel, que não entendia porque deveria fazer parte do pacote 'formação'... Sem querer ser a pessoa anti social, não questionou a necessidade da presença ali, acolheu o todo que a providência havia lhe preparado.

Vista para o mar, na cobertura de um pequeno hotel, era, de fato, muito belo. A maresia tornava o clima exterior curiosamente parecido com o interior: agradável, e ao mesmo tempo desconfortável. Ria por dentro de toda a situação procurando um evento interessante naquela noite.

Bebidas, salgados, pessoas, luzes, uma pista de dança e um DJ solitário. Começou a prestar atenção naquele homem ali, no meio daquelas luzes todas. Parecia uma caricatura. Ele tentava se mover, levantar os braços, curtir tão intensamente a música, como se uma platéia numerosa estivesse inserida em sua 'vibe'. Mas, de fato, não estavam, não havia ao menos uma pessoa dançando.

E mais ainda, olhou ao redor, aquele olhar discreto, mas analítico, e percebeu que ninguém dava sinais de engajamento na dita 'vibe' do desolado DJ. Compadeceu-se dele, porém também não lhe fez companhia na dança e na empolgação.

Estava com algumas pessoas que conhecia, mas não tinha intimidade com nenhuma delas. Conversas aleatórias, comentários sobre o dia, sorrisos, tudo dentro da etiqueta social daquele momento. Um deles tinha o claro objetivo de networking naquele lugar e, com certa constância, saía para cumprimentar e fazer-se visto.

Tentou mergulhar nas simples conversas ali, mas logo viu-se novamente intrigada com o DJ. Foi quando, de repente, ele mudou de maneira drástica o estilo musical, mas continuou com o mesmo movimento corporal. Ainda caricato, com caras e bocas, levantando os braços. Da observação concluiu-se que a todos os estilo musicais se impunha uma só maneira de dançar!

Nessa observação que começou divertida, encontrou o evento que marcava sua noite de coquetel. Esse DJ ilustrava um sentimento bem típico e sobre isso começou a divagar... Sabe quando você está tão absorvido em uma situação que não se importa se o mundo não está naquele sentimento com você? Era essa umas das ocasiões à que isso remetia.

Mas não só isso. Pensou que a nossa vida, muitas vezes, poderia ser comparada ao trabalho de um DJ. As escolhas que fazemos, as decisões que tomamos, definem a música que será tocada. Decidimos e soltamos o som. Como foi uma escolha que fizemos, pelo menos a princípio, parece a melhor escolha do mundo. E por falar em mundo, poderíamos dizer que o mundo é aquela pista de dança, e o som que o DJ executa pode ou não reverberar de maneira que os outros decidam dançar, curtir, aprovar. O DJ quer defender suas posições, por isso se move, dança, ergue os braços e quer testemunhar para todos que aquilo é bom, quer convidar todos à sua pista de dança.

Pensou também o quanto isso pode ser um canto de sereia, ou seja, um som que engana que não é verdadeiramente bom. Cada pessoa, cada DJ, vai tocar sua canção e querer que o resto do mundo se engaje naquele ritmo, mas aí entra o fato desse DJ inspirador ser tão caricato... Na vida, podemos reverberar nosso som, vender nossa ideia com nosso corpo e com todo nosso ser, mas será que o que se ouve é uma melodia real, que quer atrair os outros para algo bom?

Enfim, sem querer esgotar a reflexão, e muito menos pensar no pobre DJ como um vilão, viveu o resto daquela noite tentando se envolver mais na conversa, mas permanecia absorvida no questionamento: que tipo de música tem tocado em minha pista de dança? Desejou em silêncio que seu som se propagasse com uma melodia que fosse muito atraente, mas não atraísse para si. Que ecoasse o ritmo da Verdade, do Bem, da Beleza, que fizesse com que quem entrasse em sua pista de dança fosse transportado para um sentimento que transcende essa realidade tão sujeita à enganos, superficialidades e imagens fabricadas. Que não fosse de um jeito caricato, mas que seu entusiasmo fosse autêntico, que se movesse com um dinamismo coerente, que seus gestos comunicassem a alegria de estar envolvida em uma canção que não acaba quando os outros desaprovam, quando vão embora, ou quando a luz se apaga. Uma canção eterna, uma canção real. 

Se fosse DJ era isso que queria tocar, e encher sua pista de dança de uma festa que não tivesse um fim em si mesma. Enfim, pelo menos dentro de si, aquele coquetel terminou com um saldo positivo.

sábado, 30 de junho de 2018

Reminiscências de uma vida que nunca tivera


Nos últimos dias repassava involuntariamente as muitas memórias e aspirações de um quê sem raiz, sem futuro, mas que se impunha de modo tão forte, que parecia inevitável.


Sonhos! Desejos! Imaginação! Ilusão! Quanto poder o que não tocamos pode ter, como se quisesse tornar-se palpável, vencendo pelo cansaço aquele interior que luta de maneira inútil contra o que não existe, porém tem cores extremamente reais.

Era dolorido perceber que não havia superado, ainda, fatos que esperava terem sido resolvidos. Sentia-se como uma pessoa presa por elásticos, que caminhava, caminhava, caminhava, mas em certo ponto, era impulsionada para trás, como se o elástico esticado, a prendesse e dissesse que seu lugar era lá, no início.

Que frustrante! Não queria aceitar essa derrota, não queria manter-se limitada por aquele sentimento que a jogava para trás, para o passado, para o que já fora vencido. E, realmente, a vitória aconteceu? Pensar nisso trazia aqueles suspiros longos, profundos e preocupados. Não era aceitável esse tipo de estagnação, que gerava um retrocesso nada proveitoso, que gerava desejos vãos.

O desejo parecia ser o problema! Desejos! Por que parecia que seu juízo sempre dava mais brilho ao que não era luz verdadeira? Por que era tão atraída por aquilo que sabia que não condizia com o caminho que aprendera, que assumira, que aceitara como seu, como dom, como dádiva?
Incoerência. Inconsistência. Não queria ser assim. Não queria continuar assim. Mas o canto da vida que não era sua, continuava entoando doces e inebriantes melodias, seduzindo, chamando... enganando.

Basta! Não mais permitiria ser iludida assim. Resolveu lutar, mas não estava certa de que saberia usar as armas dessa batalha. Afinal, as armas revelavam a exigência do caminho, que era certo, porém extremamente comprometedor.

Numa dor visceral, num combate que parecia dividir seu ser em dois, encontrava-se na iminência de uma decisão. Decidiu libertar-se dos elásticos, decidiu não render-se as luzes artificias da sedução. Decidiu assumir o caminho árduo e ascético.

Mas parecia que seus sentidos não comungavam todos da mesma decisão. Alguns continuavam correndo em outras direções, cansando a alma, desgastando suas forças, confundindo o que já era decidido.

Como podia sentir tanta falta de algo que não existia? Achava-se louca, as vezes. Uma coisa era inegável: sua imaginação era realmente fértil. Era uma melancolia que transparecia uma certa aflição em seu rosto. Uma tensão que transbordava em um modo de falar e agir do qual não se orgulhava. Como se sua alma gritasse por socorro, mas seu corpo rejeitasse tudo que se aproximava para ajudar.

Cansada de querer o que não era real, de sentir o que não era nobre, de sonhar o que era simples fantasia. Cansada de ver claramente por onde deveria andar, que virtudes deveria ter, que sementes deveria plantar, mas dar um passo para frente e dois para trás, numa aparente incompetência irritante, desgastante.

E o que mais era constrangedor nas reminiscências dessa vida que se esticava para alcançar mas nunca tivera, é que a Vida, real, plena, valorosa, continua humilde, sólida, paciente, amante, esperando uma resposta generosa e determinada de seu ser tão obtuso.

Quanta esperança! Quanto amor! Quanta misericórdia! Fechou os olhos por um instante e suplicou interiormente que a vida que nunca fora sua, jamais roubasse a vida que estava a sua frente pronta para ser abraçada e vivida, com seus desafios grandiosos, mas sua plenitude infinita.

sábado, 17 de março de 2018

O Bolo


Era um domingo. Dia feliz, dia especial, dia mais importante da semana, e assumia, com contentamento essa perspectiva da importância do dia, dada por sua fé. Naquele particular "Dominus Dei" estava na cozinha preparando as refeições.

Resolveu fazer um bolo de chocolate. Depois de toda a bagunça do almoço, ainda não parecia incômodo lançar-se em mais um evento culinário. Ao contrário, a perspectiva do bolo com café amargo era muito motivadora. Focando nesse momento futuro, embarcou na missão. Resolveu fazer de uma maneira diferente do que de costume. Sempre se impressionava com os vários modos encontrados na internet de fazer uma mesma coisa... a criatividade humana sempre lhe causara essa agradável sensação de surpresa. 

Tudo feito, colocado no forno recentemente reformado. Aliás, lembrou-se que era a primeira vez que ele era utilizado após troca de uma peça. Isso causou certa insegurança a respeito do resultado, mas o pensamento logo passou. Enquanto assava seu bolo, resolveu fazer outras coisas na casa.  Mais uma situação que sempre lhe causara uma sensação de surpresa, mas não tão agradável como a outra mencionada, era como sempre havia coisas a fazer e resolver em uma casa. Era uma tarefa interminável!


Quando era tempo de tirar do forno se aproximou da cozinha e sentiu um aroma não tão agradável... "Queimou", pensou. E de fato, a temida falha aconteceu. Um sentimento de frustração reinou naquele momento. Aconteceu aquela comum avaliação de inúmeros "se"... Se eu não tivesse ficado longe da cozinha, se eu tivesse levado em conta que esse forno sofreu uma reforma recentemente, se... Mas, estava feito.

Deixou esfriando e foi fazer uma ligação. Enquanto estava naquele diálogo que era necessário e agradável, percebeu o quanto estava ainda chateada com a questão do bolo, isso transparecia na sua pouca paciência na conversa. Ficou incomodada ao concluir o quanto algo tão pequeno causou tamanho impacto. E daí que o bolo queimou? Mas a pergunta retórica não aliviou a frustração. E mais ainda, a pessoa do outro lado conseguiu captar sua impaciência, e perguntou se havia algo errado. Com embaraço por não querer admitir que toda a insatisfação era por um bolo queimado, negou! "Está tudo bem"!

Ligação terminada, bolo já esfriara, e mesmo com partes queimadas, o objetivo de comê-lo com café amargo foi atingido. Entre goles e mordidas, pensava no quanto o desejo por controle gera uma falsa impressão de que somos soberanos em nossa vida. Viu-se a tola que quer controlar o que está dentro e o que está fora, que quer controlar os resultados, dos mais simples, aos mais complexos. Que engano!

Porém, mesmo admitindo o engano, não deixava de ver dentro de si aquele rastro persistente de querer ter poder sobre o que acontece. Como pode? Planos, reflexões, preparação, moldes, treinamentos, estratégias, receitas! Quantas coisas criamos para minimizar ou erradicar a possibilidade do erro. E isso tudo não seria uma máscara para a insegurança, o orgulho, o perfeccionismo? Identificava isso em si, não tendo certeza da exata medida, mas estava lá.

Controlar, dominar, ter poder... Como o ritmo da vida empurra para a noção que de se deve ter controle, domínio e poder. Isso é sucesso? Isso é satisfação? Pode ser que dentro de si, bem lá no fundo, esteja enraizado esse conceito, mas não é bem assim! Pensou que os pontos mais essenciais de uma pessoa não é determinado por seu controle, e são exatamente esses pontos que temos de mais precioso. Não se controla, por exemplo, a identidade e a vocação, elas são dons a serem descobertos, abraçados e trabalhados, mas não controlados, com rédeas e meticulosidade. 

Escolhemos os ingredientes, definimos as medidas, colocamos a mão na massa, seguimos uma receita, damos o nosso toque final, mas nunca temos a certeza de como será o resultado. 

E assim seu café da tarde, naquele "Dominus Dei" tornou-se momento de desejar que sua vida não estivesse mais sob seu pobre controle. Desejou aprender a ser mais tolerante com o que não sai como o planejado e a ter mais inteligência e equilíbrio para acolher que de tudo se tira um bem, se a postura interior é sustentada por quem realmente domina todas as coisas. Se essa certeza interior transbordar para as atitudes, as tolas frustrações não serão sentidas nas relações com o outro. 

Que livre é quem não domina, não controla e saber viver bem assim!   

No final das contas, até que o bolo estava bom! Queimou um pouco por fora, mas o sabor e a textura estavam muito agradáveis. Considerou que aquele erro mais ajudou do que atrapalhou, afinal quem diria que algo tão ordinário revelaria algo tão extraordinário dentro de si! Louvou a graça de ter uma vida regida por providências e de ver nas pequenas coisas, enormes oportunidades para aprender sobre si e, tendo aprendido, progredir.  

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Uma Jornada de Sol

Era tudo especial! Aquela viagem era uma sucessão de emoções, lugares, sentimentos, ensinamentos que se superavam e completavam. Mas como toda viagem, tinha data para acabar, e era quase nesse ponto que se encontravam.

Havia neles o desejo de tornar tudo memorável, mas sabiam que pelo curso que tudo tomava, isso não era difícil, não exigia tanto esforço... Naquela tarde, andar pelas ruas, cantando e deixando que a vida tivesse trilha sonora parecia combinar com tudo ao redor e certamente preenchia uma parte do coração que ansiava por emoção, por aquele sentimento que não se traduz em palavras, mas existe da sede de sentir-se próximo, sentir-se parte de uma sensação compartilhada. 


Essas sensações envolviam também uma imaginação divertida, que criava histórias para os pontos daquela cidade que nenhum guia turístico poderia superar, verdadeiros ou não, os fatos imaginados eram tudo o que precisavam naquele momento.


Chegando ao monumento que era o destino final... fotos, caminhadas, risos, conversas. Tudo era leve, fácil. O clima era muito agradável, fresco. Até a chuva fina foi bem vinda, o que estava fora refletia a dinâmica do que estava dentro. Mas o objetivo mesmo era registrar o fim de tarde e as luzes da noite daquele lugar. Esperar até que as luzes se acendessem não era uma espera interminável, afinal, a relatividade do tempo é bem ativa quando vivemos momentos agradáveis, tudo parece voar.

Luzes acesas, noite estabelecida, objetivo atingido, e então nasce uma outra ideia: jantar com vista para aquele ponto. A sugestão soava bem, e foi aceita por todos. Então começa a procura pelo lugar perfeito. Logo percebia-se que só um deles tinha certo critério na escolha do lugar, os outros pareciam aceitar tudo... Porque estavam tão envolvidos no momento que nada poderia estraga-lo, ou por simples ausência de exigências. A pessoa com critério assumiu a missão da escolha, passaram por alguns lugares, nada parecia preencher os requisitos desconhecidos, mas bem impostos. Quase  na esquina, onde parecia que o monumento que queriam observar já não seria tão visível, lá estava o restaurante.

Convencidos pela simpatia de uma hostess e talvez pelo fato que estavam acabando as opções, encontraram o lugar. Nem se aventuraram a olha-lo por dentro, afinal a meta era ter aquelas luzes e aquele monumento de pano de fundo. Sentaram-se em uma mesa na calçada. Um deles ficou de costas para a desejada vista, mas parecia não ligar. Acomodados, satisfeitos com a escolha, decidiram o que comer e beber. Foi quando os ânimos acalmaram, quando pararam, que perceberam o movimento que os cercava o dia todo, mas até então não os tinha alcançado. 

A saudade do que estava acabando, o receio do final e do novo início reinou. Esse cenário atingiu uns mais profundamente do que outros, mas como nos atos anteriores daquela peça compartilhada, todos embarcaram na sensação. Ela não era tão boa quanto as outras, tinha uma certa melancolia, um certo silêncio imponente, que transbordava em olhares perdidos e longos suspiros. Mas estava tudo bem! Não estava?

Foi quando a providência que os regia adicionou aquela surpresa oportuna. Quando menos esperavam ouviu-se o som da voz forte e agradável de uma cantora. Ela cantava músicas típicas daquele lugar, assim concluíram que viviam mais uma experiência para ser contada, e algo que quase todo mundo que ia ali buscava. Que feliz surpresa! Não era mais necessário criar uma trilha sonora para o momento, porque ela estava ali, perfeitamente atrelada ao local.

Porém, nem a música foi capaz de afastar a sombra que havia pairado entre eles, trazendo a notícia do quase final. O clima era leve, mas tinha perdido a leveza divertida que foi substituída por uma mais reflexiva. Poderia-se dizer que essa atmosfera apesar de melancólica, selava uma certa cumplicidade e intimidade construídas naqueles dias. Nesse clima não eram mais simples parceiros de viagem, ali partilhavam mais, partilhavam o que estava dentro, que era inexprimível, mas pela graça do momento, era totalmente subentendido por todos.

Ao som de "O Sole Mio" e "Funiculí, Funiculá" tentavam controlar a melancolia e viver aquela última noite juntos. Comentários aleatórios, planejamento do próximo dia, elogios ao lugar, a comida, a música, e a pessoa que não os deixou parar nas primeiras opções de restaurantes; ajudavam nessa missão.

Um foi olhar dentro do restaurante, e viu o quanto era bonito, e sugeriu que todos conferissem. E assim aconteceu, em rodízio foram olhar o local escondido. E enquanto aconteciam essas saídas e chegadas na mesa, o assunto escondido começava a emergir. Diante das partilhas e das luzes lançadas no mistério trazido nos corações começaram a falar do retorno. Para que tentar dissimular o que já estava óbvio?

Nas palavras ditas, e nas não ditas estavam expressos os anseios de corações que desejavam não viver sem sentido. Todos os desafios e as possibilidades desenhadas na vida para a qual voltavam queriam, na verdade, ser abraçados, encarnados. A experiência que os havia colocado naquele estilo de vida, dentro daquelas escolhas era extremamente exigente, mas completamente cheia de verdade, essa escolha os unia em um mesmo caminho, trilhado em lugares diferentes, de maneiras diferentes, mas que os levaria no final para uma mesma eternidade. Essa trajetória os deixava a vontade uns com os outros, gerava esse sentimento confortável de reciprocidade.

A voz da cantora cessou, o jantar acabou e eles saíram dali, carregando muitas coisas para refletir. No caminho para casa, mais sensações, filosofia de metrô, danças nos corredores, fotos cheias de sentido... Coisas de quem sabe viver, e sabe viver junto.

Nisso tudo ficam o pensamento, a sensação, a memória, e as palavras. Como é especial quando vivemos momentos que são registrados em nós como uma herança que não passa. Isso parece nos tornar mais humanos, mais próximos, mais vivos. A fé que une as pessoas que a comungam tem um poder singular de tornar especial o que é vivido por ela, pela fé e na fé. Partilhar momentos com quem entende a profundidade, simplicidade e importância deles gera essa calma feliz de quem pode relaxar e ser acolhido. Que bela coisa é essa jornada na qual a divina providência nos insere, é como aquilo que aquela trilha sonora cantava:

Que bela coisa uma jornada de sol
Um ar sereno depois da tempestade
Pelo ar fresco parece já uma festa
Que bela coisa uma jornada de sol
Mas um outro sol mais belo, ainda assim, o meu sol, está na sua fronte
O sol, o meu sol, está na sua fronte, está na sua fronte
Quando desce a noite e o sol deita-se
Me pega quase uma melancolia
Ficaria embaixo da sua janela
Quando desce a noite e o sol deita-se
Mas um outro sol mais belo, ainda assim, o meu sol, está na sua fronte
O sol, o meu sol, está na sua fronte, está na sua fronte
(Tradução de "O Sole Mio")

Em busca do sol que brilha onipotente e brilha na fronte do próximo a vida continua, como essa bela jornada de sensações, crescimento, morte e ressurreição. Uma jornada que pode ser partilhada com aqueles que encontramos no caminho e que estão caminhando na mesma direção. Jornada de finais, começos, desafios, surpresas agradáveis, mimos, e todo tipo de coisa. Jornada em que encontramos pessoas que caminham para lados opostos, e nelas descobrimos a alegria de anunciar a verdadeira direção. Jornada onde O Sol nunca falta! Afinal, Ele pode se pôr, mas nunca se apaga; e mesmo quando se põe, pode ser visto na fronte daqueles que caminham ao seu lado.



quinta-feira, 19 de março de 2015

Uma ideia, uma música, um café, um futuro

Olhava na tela o arquivo ainda em branco. Retorcia-se na cadeira tentando parecer bem-sucedido, não sabia para quem ou para quê, talvez para si mesmo. Não entendia porque estava tão travado... não era isso que queria? 

Era jovem, havia iniciado sua faculdade. O trabalho que o travava naquele momento era o primeiro que iria fazer. Precisava discorrer sobre 'perspectivas de qualidade vida e futuro de sucesso no mundo de hoje tendo em vista algumas correntes filosóficas que estava estudando'. Com leve desapontamento lembra-se que havia se gabado em sala com quem estava em volta, não lembrava quem... O fato é que havia se gabado dizendo que o trabalho era ridículo, que esperava mais da esfera acadêmica...

Pegou seu computador, foi àquele café que gosta de ir, colocou fones de ouvido, e ouvia Chopin tocando piano. Gostava daquele piano, suave e meio triste... Triste não era bem a palavra, não sabia definir, mas sentia que aquilo combinava com o momento. Assim como, o copo de café, a mesa daquele lugar com tons escuros, luminárias bonitas, sofás e pessoas pareciam combinar... Combinar com seu arquivo em branco?

Frustração! Era isso que sentia agora. De repente começou a se questionar se havia escolhido o curso certo, se havia escolhido a cidade certa. Só o que fica muito claro antes de sua decisão era a vontade de sair de casa. Foi precipitado? - Não! Balançou a cabeça desaprovando e afastando de si aquele pensamento. Enfim, era essa sua realidade agora e tinha que lidar com ela. E verdadeiramente o novo, o desafio, a independência, o incerto eram bem estimulantes. Havia um mundo de possibilidades. Estava em uma boa universidade, ali havia possibilidades de pesquisa científica, estágios, intercâmbios e mais... Mas se não conseguia escrever uma porcaria de trabalho introdutório como poderia sonhar em conseguir algo assim? 

Desafiando o arquivo em branco estala os dedos e escreve: "São numerosas as possibilidades de...". De o que? Parou, e o pensamento foi longe. Possibilidades, como as que analisava dia e noite antes de vir parar nesse curso e nessa cidade. Nunca entendeu porque as pessoas eram empurradas tão cedo a esse tipo de decisão. Estava preparado? Com o rosto subitamente empalidecido lembra-se do grande desconforto de seus pais a respeito de sua decisão. Lembra-se das inúmeras orientações e súplicas de sua mãe para que "não esquecesse quem ele era". Quem eu sou! Hum, um pensamento útil se falamos de filosofia, o mais clichê de todos. Mas ainda nenhuma ideia... 

Preso ainda no pensamento sobre os sermões de seus pais, pensa como seria divertido se eles soubessem o que dizem esses filósofos sobre os valores que eles sempre defenderam... Seria divertido ver o choque no rosto deles! Ahh nem tanto, seus pais eram pessoas esclarecidas, já sabiam dessas opiniões e nunca se viram desmoralizados por elas... Talvez fosse isso que o estivesse travando, as teorias em que deveria de basear eram contrárias ao que havia vivenciado até então. Será? Talvez fosse apenas um conflito de ideais. Absurdo! Não poderia deixar que isso fosse estritamente sobre sua experiência pessoal, tinha que ser mais... flexível?

Revisando alguns pontos daquelas teorias em que deveria se basear reafirmou o quanto discordava de tudo aquilo. É claro que haviam pontos obscuros, abertos para discussão, mas em uma visão ampla: discordância. O piano de Chopin estava especialmente lindo e melancólico agora... Gostaria de ter aprendido a tocar piano! Hum talvez ainda aprendesse... A verdade é que tinha essa ideia fixa que era muito velho para começar a aprender. Mas tinha outras metas em mente, muitas, muitos sonhos e planos. Sorriu... Seu sorriso era melancólico como a música que ouvia. Será que conseguiria fazer tudo aquilo que sonhava? Era realmente algo para se questionar, principalmente se considerasse que alguns de seus planos eram totalmente contraditórios à outros... Depois de alguns instantes de pensamento vago, percebeu que Chopin não estava mais tão melancólico, e ele decidiu não estar também! 

Qualidade de vida e futuro! Qualidade de vida e futuro? O que tinha a dizer sobre isso? E mais, o que tinha a dizer sobre isso à luz desses filósofos? A verdade é que eles não conferiam nenhuma luz. Não colaboravam muito com sua linha de raciocínio... Sorriu pensando que sua mãe diria: "Bravo"! Desde que havia chegado ali via tantas coisas que o faziam questionar os valores que tem, ou tinha, ou que tem ainda... É claro que não saía por aí comentando sobre suas opiniões, afinal, as pessoas são livres para fazer o que querem, não é? Mas algumas atitudes o afetavam mais do que gostaria. Em sua cabeça parecia tão simples que as pessoas não deveriam fazer coisas estúpidas que levam à desvalorização de si mesmas e à sucessão de eventos sem sentido. Opa, seus pais ficariam felizes de novo...

O fato é que se sentia profundamente privilegiado por ter crescido em um ambiente que lhe mostrava valores, que inspirava sonhos e metas, que tinha regras, bem irritantes às vezes, mas que o ajudaram a refletir e entender muitas coisas. Entendia que isso não era muito comum hoje em dia. Tudo é moderno e permitido. Nunca foi um perfeito obediente de regras, sempre questionou e lutou, mas sempre encontrou espaço para ouvir e ser ouvido. Achava que todos mereciam essa chance... mas afinal, o que tinha ele a ver com todos? Nada! Nada?

Mas não podia negar que era meio triste. Estava tão ansioso pela faculdade, pela vida adulta, e a maioria do que via lhe parecia perda de tempo. De repente ouvia em sua cabeça, as vozes dos dois caras com quem estava dividindo o apartamento: "Relaxa"! De certa forma compreendia que sua atitude e negação à certas coisas incomodava os outros. Não queria incomodar, queria ser 'cool', mas não queria deixar de ser quem era. Isso era tão irritante.

Festas e porres, relações casuais e total despreocupação com quase tudo, a não ser aparências. Nada disso o seduzia muito. É claro que algumas facilidades que já existiam antes e que se tornaram mais fáceis ainda eram bem interessantes... Sorriu, um sorriso malicioso. Parou. Não era isso que queria. O que queria então? Qualidade de vida e futuro de sucesso? Riu novamente. O problema é que as tendências que via ao seu redor e as ideias apresentadas por aqueles caras que ele tinha que estudar não estavam em consonância com o que imaginava ser bom... Chopin estava em consonância com o que estava sentindo agora - ele riu. Hum e aquele café também! Que havia acabado por sinal. Levantou-se e comprou outro. A moça que o atendeu tinha um sorriso bonito, ele a via ali regularmente, e gostava quando ela o atendia. 

De volta ao arquivo em branco! Totalmente em branco porque já havia apagado as poucas palavras que escreveu. Sentiu falta de casa, das promessas de futuro luminoso, do bom e do belo de que ouvia falar e experimentava em sua pequena cidade, nos círculos que frequentava. Estava tão longe de lá agora! Estava longe das pessoas queridas, dos aromas familiares, das conversas sobre o desconhecido. É certo que ele vivia o tal desconhecido agora, e não lhe parecia tão maravilhoso como imaginava. É claro que já conhecia todas essas realidades, esses conceitos que agora estuda, essas tendências que testemunha e que estiveram sempre ao seu redor. E quando não estavam ao seu redor estavam estampadas em capas de revistas, em jornais e programas, em modas e estilos musicais. Afinal de contas, não era nenhum alienado! Nada disso que o incomodava era surpresa, e então, por que o incomodava mais agora?

Talvez porque agora se sentia mais pressionado a se deixar levar pela maré que o circundava. Ahhh... Que irritação! Ainda bem que o café tinha um efeito de consolação impressionante. Pensou em seus sonhos, nas razões que o levaram até ali e nas teorias em que deveria se basear para escrever. Ninguém disse que ele não poderia discordar daqueles filósofos! Aliás, somente esse pesamento já o encheu de esperanças. Mas ainda não queria que seu texto fosse muito pessoal, não queria que fosse simplesmente algo sobre si... Refletindo um pouco, levantou as sobrancelhas e torceu a boca, e concluiu que não era definitivamente somente sobre si! Percebeu que o que pensava e acreditava eram realmente propostas para todos, especialmente para aqueles que estavam em seu convívio ultimamente. Ele acreditava naquilo! Acreditava em sua eficiência! Acreditava no luminoso, no bom, no belo. Sorriu...

Tomou mais um gole de seu café, percebeu que Chopin tocava mais animadamente seu piano, esticou os braços para frente, e com brilho no olhar e dedos rápidos, começou a escrever.   

terça-feira, 3 de março de 2015

Sobre o que não deve ser exclusivo

Starry Night | Vincent Van Gogh | 1889

Nascia de uma dor estranha, de uma vontade de gritar. Mas, calma, não era nada negativo. Pelo menos achava que não. Pensava e sentia tanta coisa ao mesmo tempo, e o maior desejo era, que no meio daquela turbulência, encontrasse sentido e paz.


Ultimamente andava pensando muito no como nossas atitudes afetam e causam respostas do outro e do mundo. Pensava: "Como têm ainda coragem de não acreditar em mudança, se eu a vejo tanto e com tanta frequência"? Não era possível que isso fosse uma graça exclusiva! Não mesmo!

Pensava na beleza do emocionar-se e de emocionar-se com a beleza. A beleza que chega até a constranger... Beleza do puro, beleza do som, beleza do outro, beleza dos sentimentos, beleza das palavras, beleza das atitudes, beleza das lutas nobres, beleza da superação, beleza do simples, beleza do que inspira! Quanta beleza! Não enxergam e não percebem? Não pode ser graça exclusiva! Não mesmo! 

A dor estranha era como de algo que queria ir ao encontro. Ao encontro do que? Ao encontro de quem? Era uma certeza que queria explodir, que queria transbordar, que queria ter voz, que não cabia onde estava. Aquilo precisava fluir e dar vazão à todo o conteúdo que tinha, à toda a potência que vinha de algum outro lugar. Sabia que vinha de outro lugar, aceitava que não lhe pertencia. E que certamente não era graça exclusiva! Não mesmo!

Era algo que fazia vislumbrar em si uma pequenez imensa, com o perdão do paradoxo. Nunca tinha sido tão linda tamanha insignificância. Era um reconhecimento sobre si que tornava tudo até engraçado, que gerava uma liberdade extasiante. Nada! Pequenez e insignificância benditas! Será que era graça exclusiva? Não mesmo!

Perdia-se nas possibilidades. Um suave e profundo mergulho em si. Possibilidades para agora, para amanhã, para sempre. Meio avessa à insignificância era essa certeza da possibilidade; isso se explicava totalmente pela aceitação, de que era a dor estranha que dava força à tudo. Era ela que movia, que fazia enxergar o possível, o belo, o simples, o novo, o desafio, o tudo, o nada, o outro, todos. Tomara que não seja graça exclusiva! Não mesmo!

Isso fazia suspirar, dava uma sede, dava uma vontade de sorrir, de chorar, de ir à todos os lugares, de ficar onde mais amava, de ver mais mudança, de ver mais beleza, de se emocionar de novo, de aprender, de deixar que a dor estranha crescesse e fizesse o que bem entendesse. Restava o pensamento de que aquilo jamais deveria ser uma graça exclusiva! E isso gerava um compromisso de dividir... E como se divide uma dor estranha? Talvez da mesma forma que adquiriu-a? Pensava: "Mas eles têm medo da dor! Esse medo que os tornou fracos, cegos e prisioneiros. Quisera soubessem que a dor é só parte do processo, quisera ajudá-los a deixar que a dor estranha os tomasse, mudasse, fortalecesse, fizesse enxergar e libertasse". Compreendia o medo, porque também sentia. Compreendia a fraqueza, a cegueira e a prisão, porque tudo isso lhe era muito familiar. Porém a dor estranha superava tudo! O que fazer? 

Sabia, com certeza, que isso tudo não deve ser exclusivo! Não mesmo!


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Aspirações

Achou que era tempo propício para aspirações!

Como quem diz: "e assim seja", pegou uma caneta e um papel, sentou-se e resolveu registrar tudo... Algum tempo depois, menos entusiasmo, mais ansiedade, papel ainda em branco. Mais tempo, papel amassado no chão, semblante preocupado, pernas inquietas. Pouco depois, outra folha de papel, olhar determinado e confiante. Hora depois, medo, feição triste e olhos mareados. Resolveu deixar para o dia seguinte, mas comprometeu-se a não desistir.

Deitou-se, mas não conseguia dormir; somente pensava nas aspirações. Não entendia como conseguia pensar tanto em algo que não sabia o que era. Se pensava nelas, era porque existiam, e se existiam porque não conseguia escrevê-las? Não fazia o menor sentido, ao menos era o que parecia.

Começou a pensar no que tinha, no que era real, no que gostaria de manter. Com as mãos atrás da cabeça, olhava para o teto como se nele estivesse projetado um bom filme, o melhor de todos! Pensava, pensava, pensava e um riso discreto, mas satisfeito podia ser visto em seu rosto. Sentiu-se bem, sentiu-se uma pessoa privilegiada e abençoada!

Resolveu usar daquele "filme" para encontrar suas aspirações, afinal de contas, seria natural aspirar ao que era semelhante ou complementar ao que já era real e bom... Algum tempo depois viu que se enganara mais uma vez. Cochilou, olhou o relógio, ainda madrugada. Tentou voltar a dormir, mas não dava! Por que tinha inventado aquela 'bobagem'? 

Com um certo arrependimento, pensou em outra estratégia, já que dormir não ia mesmo... Começou a pensar no que não tinha, no que não era real e no que não gostaria de manter. Assistiu outro "bom filme" em cartaz naquele teto. No final concluiu, em choque, que ainda não conseguia definir muita coisa e ainda não estava com sono.

Acabou vendo como aquilo que não tinha e que era totalmente diferente da sua realidade parecia extremamente interessante! Achou estranho, porque sabia que amava o que tinha. Além disso, aspirando àquilo que era totalmente diferente, não somente optava por algo que não era complementar, como também colocava em risco o que já tinha. Que loucura!

Como é que abrir mão do que era bom e real poderia parecer atrativo? Não era dessas pessoas imprudentes e ingratas que consideram realidades e relações como coisas descartáveis, pelo menos assim achava. Supondo então que aspirasse ao novo, ao que não era complementar à sua realidade, que ao contrário, modificava tudo; começou outro filme...

Mas esse durou pouco, pouquíssimo, porque não tinha ideia do que imaginar; tudo parecia incerto. Digamos que viu somente a sinopse, e essa despertou-lhe curiosidade. Meio desconfortável, imaginou mais uma vez como aquilo afetava tudo que conhecia, tudo que amava... Concluiu que aspirações podiam ser perigosas! Pensou de novo como eram confusas as coisas a que aspirava, como eram diferentes e, às vezes, até opostas umas às outras...

Já sabia o que fazer! Levantou-se, pegou o papel em branco e escreveu aquilo que já tinha decidido há tempo: "não desistir". Isso sim era grande aspiração! Indicava apenas um passo nesse caminho, que considerando ambos "filmes", certamente não seria movido pela inércia; mas por escolhas, construções e desconstruções, mais passos, saltos, desvios, corridas...

Olhou para o papel e sorriu! Olhou mais uma vez, e o olhar se perdeu na imensidão daquilo que se desenhava; os olhos brilharam com as possibilidades e também com as lágrimas que queriam sair. Mas por enquanto, já havia descoberto uma importante aspiração. Colocou o papel na mesa, voltou para a cama e dormiu rápido dessa vez.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Simples Resposta


O dia estava bonito e sentar de frente para o mar era agradável. Estavam as duas ali, conversavam, se calavam e olhavam o mar... Tudo fluía naturalmente entre as amigas.


Foi quando falavam de algumas experiências divertidas e memoráveis do passado que a suavidade do momento se quebrou. Uma perguntou:
- Mas então, o que você quer de agora em diante?

A outra ficou admiravelmente mais perturbada do que deveria com a pergunta... Pensou:
- Queria uma manhã de sol reluzente, uma tarde de brisa suave, um anoitecer de céu colorido e de clima agradável. Queria a lua grande e brilhante na noite de negro misterioso e infinito. Queria o que é belo... mas belo no sentido mais nobre e profundo da palavra, não essa convenção física superficial. Queria ver o mundo, nas suas diferentes faces, jeitos, cores e aromas... ver as peças que formam o todo e apreciar quão especial e único cada lugar e cada um é. Queria ficar, aproveitar tudo, aprender, viver. Queria voltar, rever, mudar o final, fazer melhor. Queria o riso fácil, a gargalhada gostosa, o sentimento sincero, o abraço apertado, a companhia agradável. Queria prosperar, fazer a diferença, dar exemplo, levar esperança, ser do bem, mudar o mundo talvez... Queria amar, sem medo de ser feliz, sem medo de se machucar, sem reservas. Queria o que dura, o que se nutre, o que cresce, o que é escolha livre. Queria música, a melodia mais linda, a voz mais doce, a letra que refletia a alma, o ritmo que embalava o mais profundo do ser. Queria uma história que tivesse sentido, uma trajetória de significado, que gerasse fruto... e que o fruto permanecesse. Queria viver, celebrar a vida, aproveitar a vida, gerar vida. Queria o seguro, a certeza, a verdade. Queria o êxtase, a emoção, a surpresa. Queria o brilho no olhar, o coração disparado, o peito ofegante, o suspiro, a lágrima de alegria. Queria o que é eterno, verdadeiro, ordinariamente especial, útil, educativo, progressivamente melhor. Queria o perfeito e ideal?

Uma perguntou novamente:
- E então, o que?

A outra suspirou e respondeu o que pareceu ser aceitável. Aquilo que todo mundo diz, sobre o básico que todos parecem almejar. Nada parecido com aqueles rápidos segundos de infinito querer.

Uma ouviu e disse:
- Sei o que você quer dizer... Vai dar tudo certo.
- É vamos ver - respondeu a outra.

Depois de algum tempo, uma perguntou com um sorriso estranho:
- O mar não parece mais misterioso e poético hoje?

A outra riu também, um riso ainda mais estranho:
- Muito! Talvez mais do que deveria...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Aquilo que continua

A gente caminha, pensa, olha, sente, planeja, imagina, deseja... Foi uma tarde de fim de semana. Dia lindo! Céu azul, sol gostoso, paisagens lindas.

Muita gente! Turistas, moradores, gente correndo, gente fotografando, gente fazendo piquenique, gente andando de mãos dadas, gente deitada na grama, gente trabalhando, gente sendo família, gente passeando, descansando... Muita gente, mas ninguém!

Nesse cenário agradável de uma cidade conhecida pela sua beleza cultural e arquitetônica andava, andava com toda a gente e com ninguém. Caminhava para passar o tempo, para se divertir, para ver todo o bonito que se tinha para ver, andava olhando tudo e todos, mas de certa forma, não enxergava ninguém. O olhar que percorria as ruas e lugares olhava mais para dentro do que para fora. O olhar que via o sol brilhar através das lentes da câmera ou dos óculos, tentava iluminar seu interior sempre em busca de respostas, em busca do caminho, não o caminho que percorria agora, mas o caminho que deveria percorrer.

Por horas esteve aqui e lá e aqui outra vez. Parando de quando em quando, mas não para descansar, porque não importava o quando andava, não sentia cansaço. Parava para gravar o que via, numa maneira de eternizar o momento, a beleza, a imagem, o sentimento.
Sempre buscava em um rosto que não conhecia uma chance. Chance do que não sabia, mas continuava buscando. Imaginava ter uma daquelas conversas empolgantes, interessantes, filosóficas, divertidas, inteligentes. Viver o que imaginava, mesmo sabendo que o imaginário nunca acontecia! Não se frustrava, simplesmente mantinha uma ingênua esperança e um riso sincero e meio contido no rosto. Perguntava-se se sentia falta da tal interação humana, porém não sabia responder definitivamente, ora achava que sim, ora achava que não! Afinal o momento estava tão bom que mais nada importava.

Enfim constatou que de certa forma interagia com uma infinidade de gente e sentimentos... Tudo por causa das músicas que ouvia... A música adicionava a todos os elementos uma trilha sonora que nem sempre parecia apropriada ao que se via fora, mas dialogava com o que se via dentro. Conversou com alguém que falava das nuvens que pareciam cantar e dançar e que encantavam com suas formas, conversou com alguém que falava de amor, amor que se perdeu, amor que aconteceu, amor que se nutria. Conversou ainda com alguém que falava de fé, alguém que falava do que é estar sozinho, alguém que dizia querer se encontrar, alguém que estava arrependido, alguém que não se importava, alguém que exalava rebeldia, alguém que confundia valores, alguém que falava de silêncio, alguém que gritava sua mensagem. E conversou muito! Conversou com o que estava dentro! E mesmo que a imaginação ainda traçasse ideais para o que estava fora, aceitou que aquela tarde havia sido para o de dentro.

Amizade, amor, paixão, turismo, descanso, família, trabalho, aprendizado... imagem, cheiro, som... Em tudo e em todos, uma pista do seu próprio caminho, um caminho do seu próprio objetivo, um objetivo de sua própria existência... A música continua, toda a gente continua, a voz de dentro continua, a conversa em silêncio continua.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Tirar fotos

Era final de tarde de um dia bem frio. Apesar da baixa temperatura o céu estava lindo e o final da tarde desenhava-se com uma beleza promissora. Já que era assim, porque não assistir ao começo da noite na beira do rio? Ia ser interessante...

Camadas de roupa e café do lugar preferido para aguentar o frio. Chegando no deck teve a certeza de que ir ali tinha sido uma ótima ideia. Um homem tocava violão em um canto, queria ouvi-lo, mas sua seleção pessoal de músicas estava perfeita... humm continua com os fones de ouvido se perguntando se teria sido melhor ouvir o rapaz... Outro ponto é que queria estar na parte maior do deck, onde há bancos e a vista é mais completa.

Perfeito! Não tinha muita gente ali... O banco que estava bem no meio da paisagem estava disponível, fato raro! Sentou-se, bebia seu café e observava a paisagem: tinha sido realmente uma boa ideia! Dali se via o rio, a ponte, os barcos, o resto do deck... era lindo! O frio contribuiu para a baixa movimentação de pessoas, mas vez ou outra apareciam alguns casais, ou famílias, ou amigos por ali.

O céu estava majestoso! Várias cores e tons que se fundiam e contrastavam com o reflexo do rio. Apesar de tudo estar tão bonito, lamentava ver que rio estava ficando cada vez mais sujo! Que triste!

Foi nesse cenário de frio e beleza que começou a se divertir com as pessoas que por ali passavam... TODOS tiravam fotos! E o que mais chamava a atenção era que a maioria só tirava a foto e ia embora, nem apreciavam a vista!

Por certo tempo, também parou de olhar a paisagem... o estudo humano havia ficado interessante! Ria internamente e, as vezes, até um sorriso escapava observando como algumas pessoas ficam extremamente desconfortáveis posando para uma foto! Os que estavam em dupla, faziam a clássica troca do: eu tiro sua foto e depois você tira a minha. Outros fotografavam a paisagem em diferentes ângulos. Outros tiravam uma foto e passavam. Outros faziam poses, riam, faziam graça... Observando essas pessoas, se identificou com vários casos... Riu!

Foi quando se deu conta de como a lua estava linda! O dia ainda não havia escurecido, mas ela já estava ali! Brilhante, grande e cheia! Não resistiu e resolveu tirar uma foto também... e por isso riu! O momento não se manteve tão gracioso depois que constatou que a foto não retratava nem a metade da beleza que estava vendo! Não ia mais tirar nenhuma foto, se não fosse pelas gaivotas que começaram a desfilar por ali! 

As pessoas que passavam também as percebiam, e todos tentavam registrar a exibição daquelas aves. Até que uma parou em uma espécie de tronco na beira do deck e ali ficou! Posando para quem quisesse fotografar! E realmente era uma imagem digna de registro! Rio, céu, sol e lua, ponte, barco, gaivota.

Divertiu-se quando como em uma dança coreografada a gaivota 'modelo' voou e outra imediatamente tomou seu posto, e as fotos continuaram... Divertiu-se ainda mais quando um rapaz pediu que tirassem uma foto dele ao lado da gaivota... Tudo certo, modelos a postos a na hora da foto... a gaivota voou! E dessa vez nenhuma outra modelo tomou seu lugar! Riu! Pensou: gaivota metida não queria dividir a fotografia com ninguém!

Isso fez pensar ainda mais em toda aquela situação fotográfica! A gaivota exibida, queria as fotos só para ela! Querendo penetrar na beleza da paisagem e ficar no centro da atenção! Ela, sendo uma ave, naturalmente não tinha consciência nenhuma sobre a beleza do lugar, sobre o quanto se deve sentir grato por ter a oportunidade de prestigiar e dividir espaço com tamanha beleza. Estava ali por que estava, voava porque é o que as aves fazem, agia por instinto, por condicionamento da espécie.

Depois de pensar tudo isso sentiu-se mau por fazer tal análise sobre o comportamento da gaivota... e mais assustador foi pensar que muito daquilo se aplicava também às pessoas que observou... Pessoas com quem se identificou!

Com um sentimento estranho refletiu sobre como tantas vezes estamos tão presos à imagem, à foto... e esquecemos de seu sentido. E assim seguimos, usando o registro para gravar uma imagem nossa que nem sempre é real, querendo nos fundir com um lugar que não é o nosso, querendo mostrar, querendo nos promover, tirar fotos e tirar das fotos o caráter de memória, de significado... Agora é só imagem.