sábado, 9 de novembro de 2019

Água









Escorre daquele Lado Aberto
Silenciosa e constante, vai os espaços alcançando
Cristalina, dinâmica, mostrando o caminho certo
Passa e tudo o que toca vai purificando

Como uma delicada nascente 
Que preenche o vazio e se move ligeira
Como uma poderosa torrente
Que desafia o que é duro e destrói a barreira

Submerge
Insere na corrente o que pretendia se desviar
Descongele
Passa sobre o que passou para ressignificar 

Traz abundância 
Verdadeiramente arrasta o que poderia se perder
Traz constância
Gradativamente aumenta o desejo de nesse fluxo permanecer

Torna salubre 
O que estava sujo e contaminado vem atingir 
Torna vivo
O que era estéril e jazia na morte faz ressurgir 

Atrai e conquista Sua simples beleza
Vede ao redor quanta vida nasceu
Ora mansa, ora violenta, Sua correnteza
Faz transbordar o bem que cresceu 

Às Suas margens pode-se encontrar 
Uma paisagem que contém o eterno em um momento 
Às Suas margens pode-se desfrutar
De folhas que são remédio, de frutos que são alimento 

Vai! Segue seu percurso, seu plano de salvação
Vai! E leva consigo tudo que precisa ser transformado 
Vem! Como Tu és, transparente e limpa torna a visão
Vem! E reconduz tudo àquela vida que escorre do Teu Lado.


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Sobre um Retorno

Havia passado da meia noite. O carro que haviam pedido pelo aplicativo dava voltas e voltas tentando chegar em sua casa. Isso porque havia um grande trecho de reformas naquela área. Pensou sobre o quanto era engraçado saber onde queria chegar, saber o caminho, mas não conseguir por causa das tantas barreiras... 

Após várias tentativas e rotas corrigidas, chegaram. Respirando fundo pensou: "voltei". E esse retorno fez com que pensasse em tudo que havia acontecido naquela noite. Concluiu que a dinâmica da volta fora conforme o acontecido naquelas últimas horas.

Começou a repassar os fatos na sua cabeça. Tinha ido meio sem vontade, insegura sobre como tudo ia ser. Numa luta consigo mesma para sair de si, ficar no conforto de si. 

Entrou no transporte público fretado, cheio de rostos conhecidos. Olhou pela janela o caminho todo, se questionando por um instante se sua linguagem corporal dizia incisivamente "mantenha distância", mas permaneceu assim... Os olhos miravam, sem muita contemplação, as cenas que passavam pela janela. A cabeça repassava suas preces, num esforço por fazer, pensar algo bom. Acreditando que suas preces pudessem contribuir com o que iria acontecer em poucos minutos.

O momento agradável, só seu, acabou. Chegaram! Mais rostos conhecidos. Cumprimentos e sorrisos. Entraram numa capela pequena para orientações. Pensou que havia passado por ali muitas vezes, mas nunca havia entrado. Foi impactada pelos ícones e figuras que encontrou. Realmente, simples e belo. A beleza da história de um homem fraco, que em suas quedas e voltas, realizou algo grande e bom para muitos. Era Pedro, e esse belo lugar chamava-se Capela São Pedro. Na parede os peixes em alto relevo, de diferentes tamanhos e cores, sugeriam o "mar de gente" que haveria de encontrar naquela noite. Sentiu-se apreensiva, angustiada, temerosa... mas as orientações acabaram e saiu! Era hora de sair!

Comeu um sanduíche que havia preparado mais cedo para esse momento, em pé ao lado daquela capelinha, já vendo um significativo fluxo de pessoas. Eram os peixes...

Saiu acompanhada de dois rostos conhecidos, saíram como quem vai fisgar peixes, mas não é pescador; como quem tem algo valioso a oferecer, mas que a maioria das pessoas não sabe que quer. Dentro de si a loucura de tudo aquilo despertava um misto de incômodo e satisfação. Foi!

O cenário daquele local perto da praia era algo de encher o olhar, completamente! Mas os olhos não se enxiam do que poderia ser considerado 'natural'. Não se ouvia o som do mar, não se contemplava a beleza do céu, não parava-se para sentir a brisa, nem para ver as ondas quebrando na noite. 

Era um festival, fervilhando de gente, principalmente jovens. Via-se no local variadas formas de ser e de se expressar. Havia muitos em situações que não considerava muito positivas... Pensou naquilo que havia trazido para eles, e eles não sabiam. Que loucura! 

Falou com algumas pessoas. A cada conversa um universo, uma opinião, um ponto de vista, digno de respeito e reflexão. Oferecia o que havia trazido, sempre pensando se havia apresentado o que trazia da maneira certa...

A cada cena daqueles que contemplava de longe, a cada interação com aqueles que tratava de perto, muitas perguntas emergiam em seu coração, questões que inspiravam diferentes sentimentos. Sentiu compaixão, sentiu medo, sentiu-se profundamente agraciada, sentiu-se responsável, sentiu esperança, sentiu também temor da ausência dela.

Naquela noite falou sobre relações, sobre perdão, sobre confiar nos outros. Falou sobre estilo de vida, sobre encontrar algo que valesse a pena investir a vida, sobre sorrisos que revelavam alegria autêntica. Falou sobre filosofia, sobre mídias sociais, sobre grandes sonhos que nascem no coração e que podem ser realizados. Falou sobre muitas coisas, sobretudo sobre histórias de vida... da sua e da deles.

Repassando essas memórias lembrou-se, mais uma vez da dinâmica do retorno para casa... Realmente havia sido aquela a regência da noite inteira: saber onde quer chegar, saber o caminho, mas dar voltas e voltas, recalculando rotas, para atingir a meta. 

Lembrou-se também dos peixes em alto relevo naquela parede sacra... Não trazia os peixes nas mãos. Não os trouxe consigo no final da noite. Deu-se conta que deixou mais do que havia trazido. Deixou lá naquele lugar, naquelas conversas, naquelas pessoas: si mesma, deixou os sentimentos que estavam em si naquela ida desconcertante, deixou sua história naquelas palavras dadas aos ouvidos do outro, deixou o tesouro que havia trazido para compartilhar.

Nesse instante, mudou de opinião! Havia sim trazido muita coisa, não trouxe peixes nas mãos, de fato. Mas trouxe histórias no coração, trouxe sentimentos novos, trouxe um tesouro ainda maior do que o que havia levado. Poderia dizer numa frase estranha, mas que fazia muito sentido naquele momento, que 'trouxe na volta o próprio retorno'. Um retorno ao essencial, um retorno cheio de questões dentro de si, que geravam um movimento de vida. 

Que belo retorno, em suas voltas, e até revoltas, cujos caminhos podem ser cheios de obstáculos e mudanças, mas o fim permanece firme. O fim é sua casa, seu lar. O cálculo sobre ter deixado mais ou ter trazido mais, perdeu a importância. Só desejou não se esquecer daquela experiência, desejou não esquecer que era sempre preciso retornar. Retornar para ir cada vez mais longe.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Sabor

O paladar já sentiu, já provou diferentes sabores
E o gosto definiu, pelo comprovado, o que mais o atrai
Porém apresentou-se um outro, acompanhado por harmonia e cores
Diante deste tudo se cala, o que é inferior se retrai

Que é isso que sendo novo parece tão familiar?
Que encanta, que dá sentido ao todo que antes fora experimentado?
Corre, afasta tudo que possa esse divino gosto roubar
Voltem-se os sentidos para fruir da delícia que escorre do mistério encontrado

Olha, contempla, vislumbra por um instante
Neste momento em que o mais alto deixa-se atingir
Saboreia, permita-se envolver por essa Paz inebriante
Pelo gozo, puro e sublime Dele emanado, deixa-se conduzir

Sente então que sempre esteve ali, o seu rastro o seu sinal
Que ao tocar o paladar da alma o gosto despertou a Verdade
Suspira, arrebatado por um princípio em que não se encontra final
Exala gratidão porque desde já, te beija a eternidade.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

A Marvel e o Endgame na minha vida

Não consegui decidir se iria falar sobre minha 'relação' com a Marvel, ou se iria falar de Endgame, o filme mais comentado do momento, e a segunda maior bilheteria da história mundial (até agora, porque acho que vai subir). Como não houve decisão, vou falar das duas coisas mesmo... Ahhh e importante dizer, tem spoilers nesse texto! Então se não assistiu o filme, não leia.

Sempre gostei dos super heróis, desde os desenhos da infância, passando pelas séries americanas da TV aberta, evoluindo para os longa metragens nem tão populares, chegando aos poderosos blockbusters. Acho fascinante a jornada do herói: a descoberta da missão, os sucessos e fracassos do percurso, a vitória final.

Falando em "Jornada do herói", já ouviu falar em Monomito? Segundo o antropólogo Joseph Campbell, escritor do livro "O Herói de mil faces", de 1949, essa forma de construção narrativa é encontrada nas principais histórias da humanidade!!! Campbell fala da jornada basicamente em três partes: a partida, a iniciação e o retorno. O herói vive algo fantástico, extraordinário, ele luta, vence, e aprende com o que viveu. Mesmo nesse contexto de fantasia, esse caminho encontra eco nas mais diversas situações da vida. Show!

Quem nunca sonhou em ser herói? Quem nunca desejou viver uma grande aventura e triunfar demonstrando grandes habilidades? Não sei você, mas eu já sonhei com isso inúmeras vezes, e continuo sonhando...

Para mim, esse eco que o heroísmo fantasia encontra na vida ordinária reflete uma sede de infinito presente no ser humano. Não estou falando de um sentimento megalomaníaco, estou falando de imaginação, de empolgação, de desejo de viver de verdade, de ver a grandeza mesmo das pequenas coisas, de enxergar valor e potencial nas 'missões' do dia-a-dia. Aí é traçado um paralelo entre a vida real, e o percurso das histórias dos heróis. Isso me lembra quando estudei "A poética de Aristóteles", aquela coisa de mímese e verossimilhança, a imitação da vida, o contar uma história que não existe, mas relacioná-la ao real.

Chega de conceito! Vamos para o efetivo e afetivo! Eu sou fã de Marvel porque em uma década, eles desenvolveram histórias de vários personagens, unindo esses heróis em alguns momentos, expandindo mais a trama cada vez que isso acontecia, entrelaçando roteiros, deixando pistas de um filme em outros filmes, e criando um universo criativo que prende a atenção e envolve quem acompanha o desenrolar das aventuras sempre bem produzidas. Além disso, os filmes da Marvel exploraram aquilo que o fã sempre quis ver: como o herói vive depois da missão, como ele se relaciona com o mundo, o que ele faz quando não está salvando o mundo. Isso estreita a relação do personagem com quem assiste, fica mais fácil relacionar a 'aventura da minha vida', com a vida dele.

Foi uma década genial! Uma cultura pop com conteúdo bom. Digo isso porque pode-se assistir as produções e enxergar valores: existe amizade, dignidade, busca pelo bem, pelo que é certo, pelo bem do outro. Mesmo explorando figuras tidas como 'anti-heróis', era possível acompanhar o desenvolvimento desses personagens meio perdidos e traumatizados, havia esperança de mudança de vida, de melhora, de progresso interior.

Posso dizer que ao longo dessa década, que se estendeu para o décimo primeiro ano da mega trajetória (2008-2019), eu vibrei, me diverti, sonhei, me envolvi com as histórias... Eu assisti vídeos de comentários e teorias sobre as histórias (pois é), vi o mesmo filme muitas vezes, conversei sobre os roteiros, opinei sobre o que achei bom e o que achei ruim (como se minha opinião contasse alguma coisa), e esperei, fui envolvida na expectativa... E é óbvio que não fui a única, afinal de contas o MCU (Marvel Cinematic Universe) ganhou bilhões de fãs (e de dinheiro) ao redor do mundo, e fez com que um filme de herói fosse indicado ao Oscar pela primeira vez na história! Muitas marcas e recordes. 

Mas chegou o final: "We're in the Endgame now". Vimos heróis virarem pó, num final dramático de "Guerra Infinita" e esperamos pelo filme "Ultimato" cheios de esperança que os heróis voltariam e salvariam o mundo. E mais uma vez a Marvel entregou a história magistralmente para seus fãs, muito "fan service" como dizem os youtubers de canais geek kkkk. Uma vitória que ecoou na vida porque não veio simplista: veio com sacrifício, com decisões difíceis, com superação, com cooperação, com uma missão não individualista, mas em que cada um fez sua parte.

Ultimato é criativo e emocionante. Ele explora toda a carga afetiva que criamos com os personagens durante os 11 anos de filmes, e desenvolve a trama de maneira tão interessante que você não sente as 3 horas de filme passarem, aliás, você não quer que acabe!

Destaque para a interação dos personagens com as cenas dos filmes anteriores quando eles voltam no tempo. A produção teve o cuidado de usar as mesmas cenas, em ângulos diferentes, que delicadeza! E o encontro de Tony Stark com o pai, em uma bela oportunidade de cura da história de vida. E o Capitão América levantando o Mjolnir, sempre soube que ele era digno kkkk! O sacrifício da Viúva Negra e do Homem de Ferro pelos outros. E tantos outros momentos!!!

Falando em acabar, acho que está na hora de parar de escrever. Nem falei tanto de Ultimato, mas acho que deu para entender que eu recomendo! Um filme de marcar época! Agora o futuro é incerto. Ultimato foi o fechamento de 11 anos que me cativaram. Não sei se vou concordar com a maneira que a Marvel vai trabalhar a partir de agora e com os aspectos que eles pretendem explorar... Não sei!

Só sei que vou continuar admirando as produções que fazem com que a vida encontre eco na jornada do herói. É bom esse desejo de viver a vida com uma missão, de não chegar à vitória sozinha, de me envolver com cada acerto e erro do caminho, de aprender durante o percurso, de lutar pelo bem, pelo que é digno, pelo bem do outro.

No final, o cristão tem um pouco (ou muito) do herói... A diferença é que nossos super poderes não são nossas habilidades por elas mesmas, nosso poder é a graça de Deus que nos move, e que santifica nossas habilidades em vista do bem de todos.

Avante!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

DJ

Estava numa convenção da qual deveria participar. Hipoteticamente era uma oportunidade de formação e aprendizagem. Entre palestras, painéis e workshops o dia terminava naquele coquetel, que não entendia porque deveria fazer parte do pacote 'formação'... Sem querer ser a pessoa anti social, não questionou a necessidade da presença ali, acolheu o todo que a providência havia lhe preparado.

Vista para o mar, na cobertura de um pequeno hotel, era, de fato, muito belo. A maresia tornava o clima exterior curiosamente parecido com o interior: agradável, e ao mesmo tempo desconfortável. Ria por dentro de toda a situação procurando um evento interessante naquela noite.

Bebidas, salgados, pessoas, luzes, uma pista de dança e um DJ solitário. Começou a prestar atenção naquele homem ali, no meio daquelas luzes todas. Parecia uma caricatura. Ele tentava se mover, levantar os braços, curtir tão intensamente a música, como se uma platéia numerosa estivesse inserida em sua 'vibe'. Mas, de fato, não estavam, não havia ao menos uma pessoa dançando.

E mais ainda, olhou ao redor, aquele olhar discreto, mas analítico, e percebeu que ninguém dava sinais de engajamento na dita 'vibe' do desolado DJ. Compadeceu-se dele, porém também não lhe fez companhia na dança e na empolgação.

Estava com algumas pessoas que conhecia, mas não tinha intimidade com nenhuma delas. Conversas aleatórias, comentários sobre o dia, sorrisos, tudo dentro da etiqueta social daquele momento. Um deles tinha o claro objetivo de networking naquele lugar e, com certa constância, saía para cumprimentar e fazer-se visto.

Tentou mergulhar nas simples conversas ali, mas logo viu-se novamente intrigada com o DJ. Foi quando, de repente, ele mudou de maneira drástica o estilo musical, mas continuou com o mesmo movimento corporal. Ainda caricato, com caras e bocas, levantando os braços. Da observação concluiu-se que a todos os estilo musicais se impunha uma só maneira de dançar!

Nessa observação que começou divertida, encontrou o evento que marcava sua noite de coquetel. Esse DJ ilustrava um sentimento bem típico e sobre isso começou a divagar... Sabe quando você está tão absorvido em uma situação que não se importa se o mundo não está naquele sentimento com você? Era essa umas das ocasiões à que isso remetia.

Mas não só isso. Pensou que a nossa vida, muitas vezes, poderia ser comparada ao trabalho de um DJ. As escolhas que fazemos, as decisões que tomamos, definem a música que será tocada. Decidimos e soltamos o som. Como foi uma escolha que fizemos, pelo menos a princípio, parece a melhor escolha do mundo. E por falar em mundo, poderíamos dizer que o mundo é aquela pista de dança, e o som que o DJ executa pode ou não reverberar de maneira que os outros decidam dançar, curtir, aprovar. O DJ quer defender suas posições, por isso se move, dança, ergue os braços e quer testemunhar para todos que aquilo é bom, quer convidar todos à sua pista de dança.

Pensou também o quanto isso pode ser um canto de sereia, ou seja, um som que engana que não é verdadeiramente bom. Cada pessoa, cada DJ, vai tocar sua canção e querer que o resto do mundo se engaje naquele ritmo, mas aí entra o fato desse DJ inspirador ser tão caricato... Na vida, podemos reverberar nosso som, vender nossa ideia com nosso corpo e com todo nosso ser, mas será que o que se ouve é uma melodia real, que quer atrair os outros para algo bom?

Enfim, sem querer esgotar a reflexão, e muito menos pensar no pobre DJ como um vilão, viveu o resto daquela noite tentando se envolver mais na conversa, mas permanecia absorvida no questionamento: que tipo de música tem tocado em minha pista de dança? Desejou em silêncio que seu som se propagasse com uma melodia que fosse muito atraente, mas não atraísse para si. Que ecoasse o ritmo da Verdade, do Bem, da Beleza, que fizesse com que quem entrasse em sua pista de dança fosse transportado para um sentimento que transcende essa realidade tão sujeita à enganos, superficialidades e imagens fabricadas. Que não fosse de um jeito caricato, mas que seu entusiasmo fosse autêntico, que se movesse com um dinamismo coerente, que seus gestos comunicassem a alegria de estar envolvida em uma canção que não acaba quando os outros desaprovam, quando vão embora, ou quando a luz se apaga. Uma canção eterna, uma canção real. 

Se fosse DJ era isso que queria tocar, e encher sua pista de dança de uma festa que não tivesse um fim em si mesma. Enfim, pelo menos dentro de si, aquele coquetel terminou com um saldo positivo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Tesouro

Um homem encontrou um tesouro escondido no campo
Alegrou-se e o escondeu novamente, porque o queria possuir
Vendeu tudo o que tinha pois nunca havia encontrado algo que desejasse tanto
Tudo investiu, o campo com o tesouro adquiriu, com ninguém o quis dividir

Um negociante encontrou uma pérola de grande valor
Rapidamente vai, vende tudo, porque quer ter recursos para ela comprar
Sua pressa denuncia o medo de perde-la para outro mercador
Quer somente para si a pérola fina que vivia a buscar

Quem é esse homem, quem é esse negociante senão eu?
Buscando algo, alguém, que encante meus olhos, que eu queira ter?
Esticando minha alma, meus braços para alcançar o que seja meu
Numa ânsia na qual a posse se impõe como um sinônimo de vencer


Que vitória é essa que aparenta ser plena mas é vazia?
A voz divina sussurra ternamente querendo ensinar
Por que seria vão se o controle e a posse me alivia?
A voz amável insiste que meu lícito desejo precisa se reorientar

Não consigo! Olha e vê como tudo em mim pede controle e certeza
E o Deus que me chama quer me inserir no abandono
Tanto eu lutei para erguer meus muros e proteger-me em minha fortaleza
E Ele destrói as falsas seguranças e edifica em mim Seu trono

Eu reclamo os direitos daquele homem e daquele negociante
O Senhor sorri e diz que é isso mesmo que Ele quer me dar
E caindo em mim percebo, com uma dor lancinante
Que a prisão está no meu modo errado de querer ter, de querer amar

Abre a prisão! Quebra os muros! Me ensina a liberdade!
Se eu quiser possuir algo que seja o Reino do Céu
Que meus sentidos e meus desejos se orientem para a santidade
Que cesse a ilusão, que a Verdade remova do engano, o véu

Aqui está o desejo de ter tudo em minha mão
Aqui está a ansiedade de querer minha vida resolver
Aqui estão os planos, paixões, e batidas descompassadas do meu coração
Toma Senhor! Ao Seu jeito, à Sua Vontade quero me submeter

Entendo que sempre existirá esse desejo inquieto de possuir
Mas que eu deixe livre o criado e me agarre ao Criador
Que no tesouro real, na pérola preciosa, eu possa tudo investir
Que a sincera busca pelo céu, me ensine a encontrar e viver o Amor.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Refletindo Contrastes

Amor imperfeito, todo tipo de imperfeição é só o que tenho a oferecer ]
Suas entranhas se contorcem, expressando por mim, um ato de misericórdia profundo ]
É constante o Seu falar e Seu cuidar, mas nem sempre consigo Suas graças acolher ]
Muito presa às idolatrias, agitada pelos barulhos do mundo

Meu orgulho, buscando sempre ser invencível, faz com que eu me canse de mim
Sua mão constante e humilde permanece, amorosamente, a direção apontar
Sem jeito, sem muito saber, eu trilho o caminho do qual não vejo o fim
E Sua bondade valoriza todos os meus passos e derrama vigor em meu caminhar 

O que vejo são lembranças, atitudes, no ontem e no hoje, que acusam a minha imaturidade ]
Seu olhar nunca me condena assim, e a partir dele queres me definir
Eu desejo, me encanto, mas pareço ser incompatível com a Tua santidade
Me falas ternamente das marcas da Tua criação e incansável, Teu rosto em mim vens imprimir ]

Eu mitigo oferta, e ao invés do abandono, eu escolho o domínio
Paciente Tu esperas, me conquistas, me atrai, com desconcertante liberdade
Sua proposta não esconde nada e questiona das minhas ilusões o fascínio
E pela fé, que lentamente cresce, Tu me mostras o alívio de render-me à Verdade 

Me falas de coisas que não passam, queres me fazer enxergar Tua transcendência
E eu me vejo ainda apegada ao transitório, ao exagerado, ao racional
Teu Santo Espírito sempre vem em meu socorro, para iluminar minha consciência
E volto, humilhada, reconhecendo minha dificuldade de ver além, meu olhar natural 

Eu tendo à escolher o que me parece belo, bem sucedido, inteligente e interessante 
Seus valores são outros, não pensas como eu, queres o pequeno, dócil e esvaziado
Focada no que posso entender e controlar, perco de vista o que para Ti é importante
Mas Teu caminho supera o que eu definia como beleza, sucesso e lógica, em um Crucificado ]

Sempre sonhei amar e idealizei que o amor me satisfaria, trazendo prazer e conforto
Tu me amas real e concretamente, e mostras que isso comporta decisão e sacrifício
Minha visão romântica se rebela, vendo escorrer a fantasia do que fora construído no meu coração e no meu corpo ]
E me inseres num mistério de Amor sem medidas, que de contempla-lo, me percebo somente no início ]

Como pode ser? O que há de se fazer? Se parece que eu não sei ser assim. Se entre nós só há contrastes ]
Eu falho, tento, vou e volto, e minha fragilidade e inconstância, fazem-me carregar uma perene dor ]
Seu olhar puro, calmo e firme vê a Imagem e Semelhança que em mim criastes ]
Vejo que não há mais para onde ir ou o que fazer, a não ser completamente me rasgar diante da Verdade, da Misericórdia, do Amor ]

Eu grito: o que te falta, ó minha alma? O que da falta podes reclamar? 
Não recebeste Vida, Igreja, dons infusos, carismas incontáveis e redenção?
Tudo te foi dado, como podes não se conhecer, na ignorância se fechar?
Não te bastam os sacramentos, as virtudes, de Maria, dos anjos, dos santos a intercessão?

Mas já sabias de toda a minha fraqueza, ó Deus providente
Conheces minha dificuldade de Teu Amor corresponder
Mesmo assim nada retém, e a mim tudo entregas generosamente
Que eu confie em Ti e não em mim, para que esses contrastes possas vencer 

E nisso, vejo um reflexo imperfeito, mas de uma perfeição almejada
Tudo começa, tudo termina em Ti e falas que não há razão para temor
És paciente e compassivo e em Ti minha alma sempre encontra morada
Louvor Aquele que espera, perdoa e compreende, minha busca atribulada pelo Divino Amor ]

sábado, 30 de junho de 2018

Reminiscências de uma vida que nunca tivera


Nos últimos dias repassava involuntariamente as muitas memórias e aspirações de um quê sem raiz, sem futuro, mas que se impunha de modo tão forte, que parecia inevitável.


Sonhos! Desejos! Imaginação! Ilusão! Quanto poder o que não tocamos pode ter, como se quisesse tornar-se palpável, vencendo pelo cansaço aquele interior que luta de maneira inútil contra o que não existe, porém tem cores extremamente reais.

Era dolorido perceber que não havia superado, ainda, fatos que esperava terem sido resolvidos. Sentia-se como uma pessoa presa por elásticos, que caminhava, caminhava, caminhava, mas em certo ponto, era impulsionada para trás, como se o elástico esticado, a prendesse e dissesse que seu lugar era lá, no início.

Que frustrante! Não queria aceitar essa derrota, não queria manter-se limitada por aquele sentimento que a jogava para trás, para o passado, para o que já fora vencido. E, realmente, a vitória aconteceu? Pensar nisso trazia aqueles suspiros longos, profundos e preocupados. Não era aceitável esse tipo de estagnação, que gerava um retrocesso nada proveitoso, que gerava desejos vãos.

O desejo parecia ser o problema! Desejos! Por que parecia que seu juízo sempre dava mais brilho ao que não era luz verdadeira? Por que era tão atraída por aquilo que sabia que não condizia com o caminho que aprendera, que assumira, que aceitara como seu, como dom, como dádiva?
Incoerência. Inconsistência. Não queria ser assim. Não queria continuar assim. Mas o canto da vida que não era sua, continuava entoando doces e inebriantes melodias, seduzindo, chamando... enganando.

Basta! Não mais permitiria ser iludida assim. Resolveu lutar, mas não estava certa de que saberia usar as armas dessa batalha. Afinal, as armas revelavam a exigência do caminho, que era certo, porém extremamente comprometedor.

Numa dor visceral, num combate que parecia dividir seu ser em dois, encontrava-se na iminência de uma decisão. Decidiu libertar-se dos elásticos, decidiu não render-se as luzes artificias da sedução. Decidiu assumir o caminho árduo e ascético.

Mas parecia que seus sentidos não comungavam todos da mesma decisão. Alguns continuavam correndo em outras direções, cansando a alma, desgastando suas forças, confundindo o que já era decidido.

Como podia sentir tanta falta de algo que não existia? Achava-se louca, as vezes. Uma coisa era inegável: sua imaginação era realmente fértil. Era uma melancolia que transparecia uma certa aflição em seu rosto. Uma tensão que transbordava em um modo de falar e agir do qual não se orgulhava. Como se sua alma gritasse por socorro, mas seu corpo rejeitasse tudo que se aproximava para ajudar.

Cansada de querer o que não era real, de sentir o que não era nobre, de sonhar o que era simples fantasia. Cansada de ver claramente por onde deveria andar, que virtudes deveria ter, que sementes deveria plantar, mas dar um passo para frente e dois para trás, numa aparente incompetência irritante, desgastante.

E o que mais era constrangedor nas reminiscências dessa vida que se esticava para alcançar mas nunca tivera, é que a Vida, real, plena, valorosa, continua humilde, sólida, paciente, amante, esperando uma resposta generosa e determinada de seu ser tão obtuso.

Quanta esperança! Quanto amor! Quanta misericórdia! Fechou os olhos por um instante e suplicou interiormente que a vida que nunca fora sua, jamais roubasse a vida que estava a sua frente pronta para ser abraçada e vivida, com seus desafios grandiosos, mas sua plenitude infinita.

sábado, 17 de março de 2018

O Bolo


Era um domingo. Dia feliz, dia especial, dia mais importante da semana, e assumia, com contentamento essa perspectiva da importância do dia, dada por sua fé. Naquele particular "Dominus Dei" estava na cozinha preparando as refeições.

Resolveu fazer um bolo de chocolate. Depois de toda a bagunça do almoço, ainda não parecia incômodo lançar-se em mais um evento culinário. Ao contrário, a perspectiva do bolo com café amargo era muito motivadora. Focando nesse momento futuro, embarcou na missão. Resolveu fazer de uma maneira diferente do que de costume. Sempre se impressionava com os vários modos encontrados na internet de fazer uma mesma coisa... a criatividade humana sempre lhe causara essa agradável sensação de surpresa. 

Tudo feito, colocado no forno recentemente reformado. Aliás, lembrou-se que era a primeira vez que ele era utilizado após troca de uma peça. Isso causou certa insegurança a respeito do resultado, mas o pensamento logo passou. Enquanto assava seu bolo, resolveu fazer outras coisas na casa.  Mais uma situação que sempre lhe causara uma sensação de surpresa, mas não tão agradável como a outra mencionada, era como sempre havia coisas a fazer e resolver em uma casa. Era uma tarefa interminável!


Quando era tempo de tirar do forno se aproximou da cozinha e sentiu um aroma não tão agradável... "Queimou", pensou. E de fato, a temida falha aconteceu. Um sentimento de frustração reinou naquele momento. Aconteceu aquela comum avaliação de inúmeros "se"... Se eu não tivesse ficado longe da cozinha, se eu tivesse levado em conta que esse forno sofreu uma reforma recentemente, se... Mas, estava feito.

Deixou esfriando e foi fazer uma ligação. Enquanto estava naquele diálogo que era necessário e agradável, percebeu o quanto estava ainda chateada com a questão do bolo, isso transparecia na sua pouca paciência na conversa. Ficou incomodada ao concluir o quanto algo tão pequeno causou tamanho impacto. E daí que o bolo queimou? Mas a pergunta retórica não aliviou a frustração. E mais ainda, a pessoa do outro lado conseguiu captar sua impaciência, e perguntou se havia algo errado. Com embaraço por não querer admitir que toda a insatisfação era por um bolo queimado, negou! "Está tudo bem"!

Ligação terminada, bolo já esfriara, e mesmo com partes queimadas, o objetivo de comê-lo com café amargo foi atingido. Entre goles e mordidas, pensava no quanto o desejo por controle gera uma falsa impressão de que somos soberanos em nossa vida. Viu-se a tola que quer controlar o que está dentro e o que está fora, que quer controlar os resultados, dos mais simples, aos mais complexos. Que engano!

Porém, mesmo admitindo o engano, não deixava de ver dentro de si aquele rastro persistente de querer ter poder sobre o que acontece. Como pode? Planos, reflexões, preparação, moldes, treinamentos, estratégias, receitas! Quantas coisas criamos para minimizar ou erradicar a possibilidade do erro. E isso tudo não seria uma máscara para a insegurança, o orgulho, o perfeccionismo? Identificava isso em si, não tendo certeza da exata medida, mas estava lá.

Controlar, dominar, ter poder... Como o ritmo da vida empurra para a noção que de se deve ter controle, domínio e poder. Isso é sucesso? Isso é satisfação? Pode ser que dentro de si, bem lá no fundo, esteja enraizado esse conceito, mas não é bem assim! Pensou que os pontos mais essenciais de uma pessoa não é determinado por seu controle, e são exatamente esses pontos que temos de mais precioso. Não se controla, por exemplo, a identidade e a vocação, elas são dons a serem descobertos, abraçados e trabalhados, mas não controlados, com rédeas e meticulosidade. 

Escolhemos os ingredientes, definimos as medidas, colocamos a mão na massa, seguimos uma receita, damos o nosso toque final, mas nunca temos a certeza de como será o resultado. 

E assim seu café da tarde, naquele "Dominus Dei" tornou-se momento de desejar que sua vida não estivesse mais sob seu pobre controle. Desejou aprender a ser mais tolerante com o que não sai como o planejado e a ter mais inteligência e equilíbrio para acolher que de tudo se tira um bem, se a postura interior é sustentada por quem realmente domina todas as coisas. Se essa certeza interior transbordar para as atitudes, as tolas frustrações não serão sentidas nas relações com o outro. 

Que livre é quem não domina, não controla e saber viver bem assim!   

No final das contas, até que o bolo estava bom! Queimou um pouco por fora, mas o sabor e a textura estavam muito agradáveis. Considerou que aquele erro mais ajudou do que atrapalhou, afinal quem diria que algo tão ordinário revelaria algo tão extraordinário dentro de si! Louvou a graça de ter uma vida regida por providências e de ver nas pequenas coisas, enormes oportunidades para aprender sobre si e, tendo aprendido, progredir.  

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A melhor época do ano

É comum perguntarem a ela porque tanta empolgação nessa época do ano. Uma pergunta comum que não tem respostas tão comuns assim, pois sempre que questionada, parece que algo se contorce dentro de si querendo responder de uma forma que nunca consegue.

Aquele ano apresentava-se diferente dos outros, mas pensava que não era de se espantar, afinal essa época é a mais criativa, empolgante de todas. No entanto, havia algo realmente novo, e era importante. Era a primeira vez que vivia esse período naquela casa, com aquelas pessoas, naquele trabalho, aí começou a traçar a evidência de que era natural estar diferente. Porém a maior diferença era dentro, no como estava se sentindo, no como estava vivendo e no como gostaria de viver.

Não queria falar de interior agora, é muito complicado... Exteriormente os enfeites lindos começaram a aparecer cedo, dois meses antes! Acabou ganhando uma velha brincadeira com o irmão de ver quem é o primeiro a apontar os enfeites a cada ano. Fazia tempo que não ganhava, começou por aí o diferente. O irmão reclamou do quão adiantados estavam os enfeites, mas aceitou a derrota, pronto para ganhar no próximo ano.

Mas os enfeites “precoces” geralmente não retratavam o sentido que ela, que sua fé, atribuía àquela época. Tudo tinha muito mais sentido do que o comércio explorava, é triste! Os enfeites que realmente carregam a carga de sentido que procurava viver, esses tinham datas bem definidas para começar a embelezar o mundo. Ela acolhia, mas lamentava dentro de si o fato dos enfeites sem sentido terem muito mais tempo de visibilidade do que aqueles que realmente importavam. Assim era, e assim sempre seria, e era lindo assim.

Foto: Unsplash
Mesmo que tentasse fugir, uma hora não dava mais, tinha que admitir e tentar entender o que estava tão diferente dentro de si. Sim, muitas mudanças na vida, mas era mais que isso. Percebeu que era a primeira vez que vivia sua época preferida do ano com uma nova postura interior. Havia abraçado uma realidade desafiante que pretendia viver para sempre. Estava em um caminho de decisões sérias, de assumir promessas. A partir dessa conclusão começou a perceber que sua alegria por celebrar aquela data não poderia mais ser por simples gosto, tradição ou euforia, seu compromisso de amor com àqueles festejos pediam um testemunho mais maduro e encarnado. Era isso? Por essa razão a pergunta “Por que você gosta tanto do Natal?” começara a tomar uma sombra de incômodo.
E a verdade é que começou a perguntar-se várias vezes a mesma coisa, e mais do que questionamentos alheios, os seus próprios estavam mais incisivos e frequentes: Por que eu gosto tanto do Natal?

Viveu sua época preferida a questionar-se, sem deixar que olhos admirados de quem via sua alegria efusiva penetrassem sua confusão interior. Acreditava que tudo na vida era regido por uma Providência que é Divina, e a providência quis que nesse ano, ela experimentasse de situações e sentimentos bem desagradáveis, e em cada um deles ela se via impulsionada a cantar a vitória, porque afinal, era Natal, não iria se entregar a derrota ou tristeza no Natal. Mas a providência insistiu em provar se aquela alegria era autêntica ou uma alegria infantil. Por vezes fraquejou, por vezes ficou decepcionada consigo, mas a Providência tem outros nomes, um deles é Misericórdia, e assim sempre resgatava o sorriso, a expectativa feliz e a empolgação. Estava chegando o Natal!

Ele chegou! Ela viveu e não foi como de costume mesmo. Até o fim teve que escolher viver a graça do tempo que tanto amava. Desejou que fosse mais fácil, mas entendeu que era como deveria ser para que aprendesse.

Durante toda essa jornada natalina foram muitas canções, sorrisos, leituras, meditações, partilhas, momentos, luzes, lindos enfeites, que encheram seus olhos e seu coração de um desejo de sentido muito grande. Até que resolveu, depois de muito conversar com o dono do Natal, tentar mesmo responder porque o amava tanto, porque era sua época preferida.

“Creio que deve ser por causa da atmosfera de beleza sem igual que encontro nessa época. Tudo me remete ao conforto do carinho de braços puros, tudo me remete à luz que não apaga e não encontra brilho que a ela se equipare.

Imagino ser por uma alegria terna, daquelas que sentimos quando estamos em família. De um lugar aconchegante, seguro, onde reina a paz daqueles que só querem desfrutar da presença uns dos outros, que encontraram felicidade em partilhar a simplicidade do amor.

Ainda penso que tem relação com as melodias entoadas, as canções tradicionais, os ritmos que embalam a época que parece cantar por si mesma, que parece ter uma viva trilha sonora a embalar os momentos tão sublimes que envolveram o evento naquela noite em que tudo mudou.  Talvez naquela noite, os homens tenham se aproveitado do contentamento dos anjos, e conseguido por alguns momentos ouvir seus arranjos e acordes, copiando a divina canção que atravessou tempos e terras para chegar aqui e agora.

Não sei, mas o clima é diferente. É misterioso e ao mesmo tempo certo. É intrigante e  ao mesmo tempo pacificador. É um Natal, um nascimento, mas um nascimento envolvido num amor tão grande que faltam as palavras para comentar. É natural que o início de uma vida seja celebrado, seja bem vindo, seja esperado, seja alegre... Mas o Natal é a vida da Vida, é um absurdo de compaixão por mim. É a minha salvação que nasceu. A minha esperança que nasceu.
O Natal é olhar para o Deus onipotente, criador, ali, feito um bebê, pronto para se colocar em minhas mãos. É o cúmulo do abandono e da confiança, deixar todo o seu poder para ter uma natureza como a minha e se submeter ao risco da minha ruindade. É uma lição sobre o que realmente importa: a simplicidade; o esforço de fazer com que o outro prove de algo belo e cheio de amor; o cuidado de uma mãe e de um pai; o silêncio fecundo de quem fala com Deus; o pouco que se torna tudo no mistério da prodigalidade divina; a felicidade de confiar mesmo sem conhecer o futuro, porque a Providência, aquela que desde o princípio orienta a vida, cuida de tudo”!

Por isso e muito mais do que pode descrever, ela ama o Natal, porque ele é lindo, ele é feliz, ele é santo e é cheio de um mistério, de um amor que não se esgota. Por isso é vão explicá-lo, melhor é vive-lo.

O Natal é Ele, é Jesus e Ele quis ser meu.