segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

DJ

Estava numa convenção da qual deveria participar. Hipoteticamente era uma oportunidade de formação e aprendizagem. Entre palestras, painéis e workshops o dia terminava naquele coquetel, que não entendia porque deveria fazer parte do pacote 'formação'... Sem querer ser a pessoa anti social, não questionou a necessidade da presença ali, acolheu o todo que a providência havia lhe preparado.

Vista para o mar, na cobertura de um pequeno hotel, era, de fato, muito belo. A maresia tornava o clima exterior curiosamente parecido com o interior: agradável, e ao mesmo tempo desconfortável. Ria por dentro de toda a situação procurando um evento interessante naquela noite.

Bebidas, salgados, pessoas, luzes, uma pista de dança e um DJ solitário. Começou a prestar atenção naquele homem ali, no meio daquelas luzes todas. Parecia uma caricatura. Ele tentava se mover, levantar os braços, curtir tão intensamente a música, como se uma platéia numerosa estivesse inserida em sua 'vibe'. Mas, de fato, não estavam, não havia ao menos uma pessoa dançando.

E mais ainda, olhou ao redor, aquele olhar discreto, mas analítico, e percebeu que ninguém dava sinais de engajamento na dita 'vibe' do desolado DJ. Compadeceu-se dele, porém também não lhe fez companhia na dança e na empolgação.

Estava com algumas pessoas que conhecia, mas não tinha intimidade com nenhuma delas. Conversas aleatórias, comentários sobre o dia, sorrisos, tudo dentro da etiqueta social daquele momento. Um deles tinha o claro objetivo de networking naquele lugar e, com certa constância, saía para cumprimentar e fazer-se visto.

Tentou mergulhar nas simples conversas ali, mas logo viu-se novamente intrigada com o DJ. Foi quando, de repente, ele mudou de maneira drástica o estilo musical, mas continuou com o mesmo movimento corporal. Ainda caricato, com caras e bocas, levantando os braços. Da observação concluiu-se que a todos os estilo musicais se impunha uma só maneira de dançar!

Nessa observação que começou divertida, encontrou o evento que marcava sua noite de coquetel. Esse DJ ilustrava um sentimento bem típico e sobre isso começou a divagar... Sabe quando você está tão absorvido em uma situação que não se importa se o mundo não está naquele sentimento com você? Era essa umas das ocasiões à que isso remetia.

Mas não só isso. Pensou que a nossa vida, muitas vezes, poderia ser comparada ao trabalho de um DJ. As escolhas que fazemos, as decisões que tomamos, definem a música que será tocada. Decidimos e soltamos o som. Como foi uma escolha que fizemos, pelo menos a princípio, parece a melhor escolha do mundo. E por falar em mundo, poderíamos dizer que o mundo é aquela pista de dança, e o som que o DJ executa pode ou não reverberar de maneira que os outros decidam dançar, curtir, aprovar. O DJ quer defender suas posições, por isso se move, dança, ergue os braços e quer testemunhar para todos que aquilo é bom, quer convidar todos à sua pista de dança.

Pensou também o quanto isso pode ser um canto de sereia, ou seja, um som que engana que não é verdadeiramente bom. Cada pessoa, cada DJ, vai tocar sua canção e querer que o resto do mundo se engaje naquele ritmo, mas aí entra o fato desse DJ inspirador ser tão caricato... Na vida, podemos reverberar nosso som, vender nossa ideia com nosso corpo e com todo nosso ser, mas será que o que se ouve é uma melodia real, que quer atrair os outros para algo bom?

Enfim, sem querer esgotar a reflexão, e muito menos pensar no pobre DJ como um vilão, viveu o resto daquela noite tentando se envolver mais na conversa, mas permanecia absorvida no questionamento: que tipo de música tem tocado em minha pista de dança? Desejou em silêncio que seu som se propagasse com uma melodia que fosse muito atraente, mas não atraísse para si. Que ecoasse o ritmo da Verdade, do Bem, da Beleza, que fizesse com que quem entrasse em sua pista de dança fosse transportado para um sentimento que transcende essa realidade tão sujeita à enganos, superficialidades e imagens fabricadas. Que não fosse de um jeito caricato, mas que seu entusiasmo fosse autêntico, que se movesse com um dinamismo coerente, que seus gestos comunicassem a alegria de estar envolvida em uma canção que não acaba quando os outros desaprovam, quando vão embora, ou quando a luz se apaga. Uma canção eterna, uma canção real. 

Se fosse DJ era isso que queria tocar, e encher sua pista de dança de uma festa que não tivesse um fim em si mesma. Enfim, pelo menos dentro de si, aquele coquetel terminou com um saldo positivo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Tesouro

Um homem encontrou um tesouro escondido no campo
Alegrou-se e o escondeu novamente, porque o queria possuir
Vendeu tudo o que tinha pois nunca havia encontrado algo que desejasse tanto
Tudo investiu, o campo com o tesouro adquiriu, com ninguém o quis dividir

Um negociante encontrou uma pérola de grande valor
Rapidamente vai, vende tudo, porque quer ter recursos para ela comprar
Sua pressa denuncia o medo de perde-la para outro mercador
Quer somente para si a pérola fina que vivia a buscar

Quem é esse homem, quem é esse negociante senão eu?
Buscando algo, alguém, que encante meus olhos, que eu queira ter?
Esticando minha alma, meus braços para alcançar o que seja meu
Numa ânsia na qual a posse se impõe como um sinônimo de vencer


Que vitória é essa que aparenta ser plena mas é vazia?
A voz divina sussurra ternamente querendo ensinar
Por que seria vão se o controle e a posse me alivia?
A voz amável insiste que meu lícito desejo precisa se reorientar

Não consigo! Olha e vê como tudo em mim pede controle e certeza
E o Deus que me chama quer me inserir no abandono
Tanto eu lutei para erguer meus muros e proteger-me em minha fortaleza
E Ele destrói as falsas seguranças e edifica em mim Seu trono

Eu reclamo os direitos daquele homem e daquele negociante
O Senhor sorri e diz que é isso mesmo que Ele quer me dar
E caindo em mim percebo, com uma dor lancinante
Que a prisão está no meu modo errado de querer ter, de querer amar

Abre a prisão! Quebra os muros! Me ensina a liberdade!
Se eu quiser possuir algo que seja o Reino do Céu
Que meus sentidos e meus desejos se orientem para a santidade
Que cesse a ilusão, que a Verdade remova do engano, o véu

Aqui está o desejo de ter tudo em minha mão
Aqui está a ansiedade de querer minha vida resolver
Aqui estão os planos, paixões, e batidas descompassadas do meu coração
Toma Senhor! Ao Seu jeito, à Sua Vontade quero me submeter

Entendo que sempre existirá esse desejo inquieto de possuir
Mas que eu deixe livre o criado e me agarre ao Criador
Que no tesouro real, na pérola preciosa, eu possa tudo investir
Que a sincera busca pelo céu, me ensine a encontrar e viver o Amor.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Refletindo Contrastes

Amor imperfeito, todo tipo de imperfeição é só o que tenho a oferecer ]
Suas entranhas se contorcem, expressando por mim, um ato de misericórdia profundo ]
É constante o Seu falar e Seu cuidar, mas nem sempre consigo Suas graças acolher ]
Muito presa às idolatrias, agitada pelos barulhos do mundo

Meu orgulho, buscando sempre ser invencível, faz com que eu me canse de mim
Sua mão constante e humilde permanece, amorosamente, a direção apontar
Sem jeito, sem muito saber, eu trilho o caminho do qual não vejo o fim
E Sua bondade valoriza todos os meus passos e derrama vigor em meu caminhar 

O que vejo são lembranças, atitudes, no ontem e no hoje, que acusam a minha imaturidade ]
Seu olhar nunca me condena assim, e a partir dele queres me definir
Eu desejo, me encanto, mas pareço ser incompatível com a Tua santidade
Me falas ternamente das marcas da Tua criação e incansável, Teu rosto em mim vens imprimir ]

Eu mitigo oferta, e ao invés do abandono, eu escolho o domínio
Paciente Tu esperas, me conquistas, me atrai, com desconcertante liberdade
Sua proposta não esconde nada e questiona das minhas ilusões o fascínio
E pela fé, que lentamente cresce, Tu me mostras o alívio de render-me à Verdade 

Me falas de coisas que não passam, queres me fazer enxergar Tua transcendência
E eu me vejo ainda apegada ao transitório, ao exagerado, ao racional
Teu Santo Espírito sempre vem em meu socorro, para iluminar minha consciência
E volto, humilhada, reconhecendo minha dificuldade de ver além, meu olhar natural 

Eu tendo à escolher o que me parece belo, bem sucedido, inteligente e interessante 
Seus valores são outros, não pensas como eu, queres o pequeno, dócil e esvaziado
Focada no que posso entender e controlar, perco de vista o que para Ti é importante
Mas Teu caminho supera o que eu definia como beleza, sucesso e lógica, em um Crucificado ]

Sempre sonhei amar e idealizei que o amor me satisfaria, trazendo prazer e conforto
Tu me amas real e concretamente, e mostras que isso comporta decisão e sacrifício
Minha visão romântica se rebela, vendo escorrer a fantasia do que fora construído no meu coração e no meu corpo ]
E me inseres num mistério de Amor sem medidas, que de contempla-lo, me percebo somente no início ]

Como pode ser? O que há de se fazer? Se parece que eu não sei ser assim. Se entre nós só há contrastes ]
Eu falho, tento, vou e volto, e minha fragilidade e inconstância, fazem-me carregar uma perene dor ]
Seu olhar puro, calmo e firme vê a Imagem e Semelhança que em mim criastes ]
Vejo que não há mais para onde ir ou o que fazer, a não ser completamente me rasgar diante da Verdade, da Misericórdia, do Amor ]

Eu grito: o que te falta, ó minha alma? O que da falta podes reclamar? 
Não recebeste Vida, Igreja, dons infusos, carismas incontáveis e redenção?
Tudo te foi dado, como podes não se conhecer, na ignorância se fechar?
Não te bastam os sacramentos, as virtudes, de Maria, dos anjos, dos santos a intercessão?

Mas já sabias de toda a minha fraqueza, ó Deus providente
Conheces minha dificuldade de Teu Amor corresponder
Mesmo assim nada retém, e a mim tudo entregas generosamente
Que eu confie em Ti e não em mim, para que esses contrastes possas vencer 

E nisso, vejo um reflexo imperfeito, mas de uma perfeição almejada
Tudo começa, tudo termina em Ti e falas que não há razão para temor
És paciente e compassivo e em Ti minha alma sempre encontra morada
Louvor Aquele que espera, perdoa e compreende, minha busca atribulada pelo Divino Amor ]

sábado, 30 de junho de 2018

Reminiscências de uma vida que nunca tivera


Nos últimos dias repassava involuntariamente as muitas memórias e aspirações de um quê sem raiz, sem futuro, mas que se impunha de modo tão forte, que parecia inevitável.


Sonhos! Desejos! Imaginação! Ilusão! Quanto poder o que não tocamos pode ter, como se quisesse tornar-se palpável, vencendo pelo cansaço aquele interior que luta de maneira inútil contra o que não existe, porém tem cores extremamente reais.

Era dolorido perceber que não havia superado, ainda, fatos que esperava terem sido resolvidos. Sentia-se como uma pessoa presa por elásticos, que caminhava, caminhava, caminhava, mas em certo ponto, era impulsionada para trás, como se o elástico esticado, a prendesse e dissesse que seu lugar era lá, no início.

Que frustrante! Não queria aceitar essa derrota, não queria manter-se limitada por aquele sentimento que a jogava para trás, para o passado, para o que já fora vencido. E, realmente, a vitória aconteceu? Pensar nisso trazia aqueles suspiros longos, profundos e preocupados. Não era aceitável esse tipo de estagnação, que gerava um retrocesso nada proveitoso, que gerava desejos vãos.

O desejo parecia ser o problema! Desejos! Por que parecia que seu juízo sempre dava mais brilho ao que não era luz verdadeira? Por que era tão atraída por aquilo que sabia que não condizia com o caminho que aprendera, que assumira, que aceitara como seu, como dom, como dádiva?
Incoerência. Inconsistência. Não queria ser assim. Não queria continuar assim. Mas o canto da vida que não era sua, continuava entoando doces e inebriantes melodias, seduzindo, chamando... enganando.

Basta! Não mais permitiria ser iludida assim. Resolveu lutar, mas não estava certa de que saberia usar as armas dessa batalha. Afinal, as armas revelavam a exigência do caminho, que era certo, porém extremamente comprometedor.

Numa dor visceral, num combate que parecia dividir seu ser em dois, encontrava-se na iminência de uma decisão. Decidiu libertar-se dos elásticos, decidiu não render-se as luzes artificias da sedução. Decidiu assumir o caminho árduo e ascético.

Mas parecia que seus sentidos não comungavam todos da mesma decisão. Alguns continuavam correndo em outras direções, cansando a alma, desgastando suas forças, confundindo o que já era decidido.

Como podia sentir tanta falta de algo que não existia? Achava-se louca, as vezes. Uma coisa era inegável: sua imaginação era realmente fértil. Era uma melancolia que transparecia uma certa aflição em seu rosto. Uma tensão que transbordava em um modo de falar e agir do qual não se orgulhava. Como se sua alma gritasse por socorro, mas seu corpo rejeitasse tudo que se aproximava para ajudar.

Cansada de querer o que não era real, de sentir o que não era nobre, de sonhar o que era simples fantasia. Cansada de ver claramente por onde deveria andar, que virtudes deveria ter, que sementes deveria plantar, mas dar um passo para frente e dois para trás, numa aparente incompetência irritante, desgastante.

E o que mais era constrangedor nas reminiscências dessa vida que se esticava para alcançar mas nunca tivera, é que a Vida, real, plena, valorosa, continua humilde, sólida, paciente, amante, esperando uma resposta generosa e determinada de seu ser tão obtuso.

Quanta esperança! Quanto amor! Quanta misericórdia! Fechou os olhos por um instante e suplicou interiormente que a vida que nunca fora sua, jamais roubasse a vida que estava a sua frente pronta para ser abraçada e vivida, com seus desafios grandiosos, mas sua plenitude infinita.

sábado, 17 de março de 2018

O Bolo


Era um domingo. Dia feliz, dia especial, dia mais importante da semana, e assumia, com contentamento essa perspectiva da importância do dia, dada por sua fé. Naquele particular "Dominus Dei" estava na cozinha preparando as refeições.

Resolveu fazer um bolo de chocolate. Depois de toda a bagunça do almoço, ainda não parecia incômodo lançar-se em mais um evento culinário. Ao contrário, a perspectiva do bolo com café amargo era muito motivadora. Focando nesse momento futuro, embarcou na missão. Resolveu fazer de uma maneira diferente do que de costume. Sempre se impressionava com os vários modos encontrados na internet de fazer uma mesma coisa... a criatividade humana sempre lhe causara essa agradável sensação de surpresa. 

Tudo feito, colocado no forno recentemente reformado. Aliás, lembrou-se que era a primeira vez que ele era utilizado após troca de uma peça. Isso causou certa insegurança a respeito do resultado, mas o pensamento logo passou. Enquanto assava seu bolo, resolveu fazer outras coisas na casa.  Mais uma situação que sempre lhe causara uma sensação de surpresa, mas não tão agradável como a outra mencionada, era como sempre havia coisas a fazer e resolver em uma casa. Era uma tarefa interminável!


Quando era tempo de tirar do forno se aproximou da cozinha e sentiu um aroma não tão agradável... "Queimou", pensou. E de fato, a temida falha aconteceu. Um sentimento de frustração reinou naquele momento. Aconteceu aquela comum avaliação de inúmeros "se"... Se eu não tivesse ficado longe da cozinha, se eu tivesse levado em conta que esse forno sofreu uma reforma recentemente, se... Mas, estava feito.

Deixou esfriando e foi fazer uma ligação. Enquanto estava naquele diálogo que era necessário e agradável, percebeu o quanto estava ainda chateada com a questão do bolo, isso transparecia na sua pouca paciência na conversa. Ficou incomodada ao concluir o quanto algo tão pequeno causou tamanho impacto. E daí que o bolo queimou? Mas a pergunta retórica não aliviou a frustração. E mais ainda, a pessoa do outro lado conseguiu captar sua impaciência, e perguntou se havia algo errado. Com embaraço por não querer admitir que toda a insatisfação era por um bolo queimado, negou! "Está tudo bem"!

Ligação terminada, bolo já esfriara, e mesmo com partes queimadas, o objetivo de comê-lo com café amargo foi atingido. Entre goles e mordidas, pensava no quanto o desejo por controle gera uma falsa impressão de que somos soberanos em nossa vida. Viu-se a tola que quer controlar o que está dentro e o que está fora, que quer controlar os resultados, dos mais simples, aos mais complexos. Que engano!

Porém, mesmo admitindo o engano, não deixava de ver dentro de si aquele rastro persistente de querer ter poder sobre o que acontece. Como pode? Planos, reflexões, preparação, moldes, treinamentos, estratégias, receitas! Quantas coisas criamos para minimizar ou erradicar a possibilidade do erro. E isso tudo não seria uma máscara para a insegurança, o orgulho, o perfeccionismo? Identificava isso em si, não tendo certeza da exata medida, mas estava lá.

Controlar, dominar, ter poder... Como o ritmo da vida empurra para a noção que de se deve ter controle, domínio e poder. Isso é sucesso? Isso é satisfação? Pode ser que dentro de si, bem lá no fundo, esteja enraizado esse conceito, mas não é bem assim! Pensou que os pontos mais essenciais de uma pessoa não é determinado por seu controle, e são exatamente esses pontos que temos de mais precioso. Não se controla, por exemplo, a identidade e a vocação, elas são dons a serem descobertos, abraçados e trabalhados, mas não controlados, com rédeas e meticulosidade. 

Escolhemos os ingredientes, definimos as medidas, colocamos a mão na massa, seguimos uma receita, damos o nosso toque final, mas nunca temos a certeza de como será o resultado. 

E assim seu café da tarde, naquele "Dominus Dei" tornou-se momento de desejar que sua vida não estivesse mais sob seu pobre controle. Desejou aprender a ser mais tolerante com o que não sai como o planejado e a ter mais inteligência e equilíbrio para acolher que de tudo se tira um bem, se a postura interior é sustentada por quem realmente domina todas as coisas. Se essa certeza interior transbordar para as atitudes, as tolas frustrações não serão sentidas nas relações com o outro. 

Que livre é quem não domina, não controla e saber viver bem assim!   

No final das contas, até que o bolo estava bom! Queimou um pouco por fora, mas o sabor e a textura estavam muito agradáveis. Considerou que aquele erro mais ajudou do que atrapalhou, afinal quem diria que algo tão ordinário revelaria algo tão extraordinário dentro de si! Louvou a graça de ter uma vida regida por providências e de ver nas pequenas coisas, enormes oportunidades para aprender sobre si e, tendo aprendido, progredir.  

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A melhor época do ano

É comum perguntarem a ela porque tanta empolgação nessa época do ano. Uma pergunta comum que não tem respostas tão comuns assim, pois sempre que questionada, parece que algo se contorce dentro de si querendo responder de uma forma que nunca consegue.

Aquele ano apresentava-se diferente dos outros, mas pensava que não era de se espantar, afinal essa época é a mais criativa, empolgante de todas. No entanto, havia algo realmente novo, e era importante. Era a primeira vez que vivia esse período naquela casa, com aquelas pessoas, naquele trabalho, aí começou a traçar a evidência de que era natural estar diferente. Porém a maior diferença era dentro, no como estava se sentindo, no como estava vivendo e no como gostaria de viver.

Não queria falar de interior agora, é muito complicado... Exteriormente os enfeites lindos começaram a aparecer cedo, dois meses antes! Acabou ganhando uma velha brincadeira com o irmão de ver quem é o primeiro a apontar os enfeites a cada ano. Fazia tempo que não ganhava, começou por aí o diferente. O irmão reclamou do quão adiantados estavam os enfeites, mas aceitou a derrota, pronto para ganhar no próximo ano.

Mas os enfeites “precoces” geralmente não retratavam o sentido que ela, que sua fé, atribuía àquela época. Tudo tinha muito mais sentido do que o comércio explorava, é triste! Os enfeites que realmente carregam a carga de sentido que procurava viver, esses tinham datas bem definidas para começar a embelezar o mundo. Ela acolhia, mas lamentava dentro de si o fato dos enfeites sem sentido terem muito mais tempo de visibilidade do que aqueles que realmente importavam. Assim era, e assim sempre seria, e era lindo assim.

Foto: Unsplash
Mesmo que tentasse fugir, uma hora não dava mais, tinha que admitir e tentar entender o que estava tão diferente dentro de si. Sim, muitas mudanças na vida, mas era mais que isso. Percebeu que era a primeira vez que vivia sua época preferida do ano com uma nova postura interior. Havia abraçado uma realidade desafiante que pretendia viver para sempre. Estava em um caminho de decisões sérias, de assumir promessas. A partir dessa conclusão começou a perceber que sua alegria por celebrar aquela data não poderia mais ser por simples gosto, tradição ou euforia, seu compromisso de amor com àqueles festejos pediam um testemunho mais maduro e encarnado. Era isso? Por essa razão a pergunta “Por que você gosta tanto do Natal?” começara a tomar uma sombra de incômodo.
E a verdade é que começou a perguntar-se várias vezes a mesma coisa, e mais do que questionamentos alheios, os seus próprios estavam mais incisivos e frequentes: Por que eu gosto tanto do Natal?

Viveu sua época preferida a questionar-se, sem deixar que olhos admirados de quem via sua alegria efusiva penetrassem sua confusão interior. Acreditava que tudo na vida era regido por uma Providência que é Divina, e a providência quis que nesse ano, ela experimentasse de situações e sentimentos bem desagradáveis, e em cada um deles ela se via impulsionada a cantar a vitória, porque afinal, era Natal, não iria se entregar a derrota ou tristeza no Natal. Mas a providência insistiu em provar se aquela alegria era autêntica ou uma alegria infantil. Por vezes fraquejou, por vezes ficou decepcionada consigo, mas a Providência tem outros nomes, um deles é Misericórdia, e assim sempre resgatava o sorriso, a expectativa feliz e a empolgação. Estava chegando o Natal!

Ele chegou! Ela viveu e não foi como de costume mesmo. Até o fim teve que escolher viver a graça do tempo que tanto amava. Desejou que fosse mais fácil, mas entendeu que era como deveria ser para que aprendesse.

Durante toda essa jornada natalina foram muitas canções, sorrisos, leituras, meditações, partilhas, momentos, luzes, lindos enfeites, que encheram seus olhos e seu coração de um desejo de sentido muito grande. Até que resolveu, depois de muito conversar com o dono do Natal, tentar mesmo responder porque o amava tanto, porque era sua época preferida.

“Creio que deve ser por causa da atmosfera de beleza sem igual que encontro nessa época. Tudo me remete ao conforto do carinho de braços puros, tudo me remete à luz que não apaga e não encontra brilho que a ela se equipare.

Imagino ser por uma alegria terna, daquelas que sentimos quando estamos em família. De um lugar aconchegante, seguro, onde reina a paz daqueles que só querem desfrutar da presença uns dos outros, que encontraram felicidade em partilhar a simplicidade do amor.

Ainda penso que tem relação com as melodias entoadas, as canções tradicionais, os ritmos que embalam a época que parece cantar por si mesma, que parece ter uma viva trilha sonora a embalar os momentos tão sublimes que envolveram o evento naquela noite em que tudo mudou.  Talvez naquela noite, os homens tenham se aproveitado do contentamento dos anjos, e conseguido por alguns momentos ouvir seus arranjos e acordes, copiando a divina canção que atravessou tempos e terras para chegar aqui e agora.

Não sei, mas o clima é diferente. É misterioso e ao mesmo tempo certo. É intrigante e  ao mesmo tempo pacificador. É um Natal, um nascimento, mas um nascimento envolvido num amor tão grande que faltam as palavras para comentar. É natural que o início de uma vida seja celebrado, seja bem vindo, seja esperado, seja alegre... Mas o Natal é a vida da Vida, é um absurdo de compaixão por mim. É a minha salvação que nasceu. A minha esperança que nasceu.
O Natal é olhar para o Deus onipotente, criador, ali, feito um bebê, pronto para se colocar em minhas mãos. É o cúmulo do abandono e da confiança, deixar todo o seu poder para ter uma natureza como a minha e se submeter ao risco da minha ruindade. É uma lição sobre o que realmente importa: a simplicidade; o esforço de fazer com que o outro prove de algo belo e cheio de amor; o cuidado de uma mãe e de um pai; o silêncio fecundo de quem fala com Deus; o pouco que se torna tudo no mistério da prodigalidade divina; a felicidade de confiar mesmo sem conhecer o futuro, porque a Providência, aquela que desde o princípio orienta a vida, cuida de tudo”!

Por isso e muito mais do que pode descrever, ela ama o Natal, porque ele é lindo, ele é feliz, ele é santo e é cheio de um mistério, de um amor que não se esgota. Por isso é vão explicá-lo, melhor é vive-lo.

O Natal é Ele, é Jesus e Ele quis ser meu.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Uma Jornada de Sol

Era tudo especial! Aquela viagem era uma sucessão de emoções, lugares, sentimentos, ensinamentos que se superavam e completavam. Mas como toda viagem, tinha data para acabar, e era quase nesse ponto que se encontravam.

Havia neles o desejo de tornar tudo memorável, mas sabiam que pelo curso que tudo tomava, isso não era difícil, não exigia tanto esforço... Naquela tarde, andar pelas ruas, cantando e deixando que a vida tivesse trilha sonora parecia combinar com tudo ao redor e certamente preenchia uma parte do coração que ansiava por emoção, por aquele sentimento que não se traduz em palavras, mas existe da sede de sentir-se próximo, sentir-se parte de uma sensação compartilhada. 


Essas sensações envolviam também uma imaginação divertida, que criava histórias para os pontos daquela cidade que nenhum guia turístico poderia superar, verdadeiros ou não, os fatos imaginados eram tudo o que precisavam naquele momento.


Chegando ao monumento que era o destino final... fotos, caminhadas, risos, conversas. Tudo era leve, fácil. O clima era muito agradável, fresco. Até a chuva fina foi bem vinda, o que estava fora refletia a dinâmica do que estava dentro. Mas o objetivo mesmo era registrar o fim de tarde e as luzes da noite daquele lugar. Esperar até que as luzes se acendessem não era uma espera interminável, afinal, a relatividade do tempo é bem ativa quando vivemos momentos agradáveis, tudo parece voar.

Luzes acesas, noite estabelecida, objetivo atingido, e então nasce uma outra ideia: jantar com vista para aquele ponto. A sugestão soava bem, e foi aceita por todos. Então começa a procura pelo lugar perfeito. Logo percebia-se que só um deles tinha certo critério na escolha do lugar, os outros pareciam aceitar tudo... Porque estavam tão envolvidos no momento que nada poderia estraga-lo, ou por simples ausência de exigências. A pessoa com critério assumiu a missão da escolha, passaram por alguns lugares, nada parecia preencher os requisitos desconhecidos, mas bem impostos. Quase  na esquina, onde parecia que o monumento que queriam observar já não seria tão visível, lá estava o restaurante.

Convencidos pela simpatia de uma hostess e talvez pelo fato que estavam acabando as opções, encontraram o lugar. Nem se aventuraram a olha-lo por dentro, afinal a meta era ter aquelas luzes e aquele monumento de pano de fundo. Sentaram-se em uma mesa na calçada. Um deles ficou de costas para a desejada vista, mas parecia não ligar. Acomodados, satisfeitos com a escolha, decidiram o que comer e beber. Foi quando os ânimos acalmaram, quando pararam, que perceberam o movimento que os cercava o dia todo, mas até então não os tinha alcançado. 

A saudade do que estava acabando, o receio do final e do novo início reinou. Esse cenário atingiu uns mais profundamente do que outros, mas como nos atos anteriores daquela peça compartilhada, todos embarcaram na sensação. Ela não era tão boa quanto as outras, tinha uma certa melancolia, um certo silêncio imponente, que transbordava em olhares perdidos e longos suspiros. Mas estava tudo bem! Não estava?

Foi quando a providência que os regia adicionou aquela surpresa oportuna. Quando menos esperavam ouviu-se o som da voz forte e agradável de uma cantora. Ela cantava músicas típicas daquele lugar, assim concluíram que viviam mais uma experiência para ser contada, e algo que quase todo mundo que ia ali buscava. Que feliz surpresa! Não era mais necessário criar uma trilha sonora para o momento, porque ela estava ali, perfeitamente atrelada ao local.

Porém, nem a música foi capaz de afastar a sombra que havia pairado entre eles, trazendo a notícia do quase final. O clima era leve, mas tinha perdido a leveza divertida que foi substituída por uma mais reflexiva. Poderia-se dizer que essa atmosfera apesar de melancólica, selava uma certa cumplicidade e intimidade construídas naqueles dias. Nesse clima não eram mais simples parceiros de viagem, ali partilhavam mais, partilhavam o que estava dentro, que era inexprimível, mas pela graça do momento, era totalmente subentendido por todos.

Ao som de "O Sole Mio" e "Funiculí, Funiculá" tentavam controlar a melancolia e viver aquela última noite juntos. Comentários aleatórios, planejamento do próximo dia, elogios ao lugar, a comida, a música, e a pessoa que não os deixou parar nas primeiras opções de restaurantes; ajudavam nessa missão.

Um foi olhar dentro do restaurante, e viu o quanto era bonito, e sugeriu que todos conferissem. E assim aconteceu, em rodízio foram olhar o local escondido. E enquanto aconteciam essas saídas e chegadas na mesa, o assunto escondido começava a emergir. Diante das partilhas e das luzes lançadas no mistério trazido nos corações começaram a falar do retorno. Para que tentar dissimular o que já estava óbvio?

Nas palavras ditas, e nas não ditas estavam expressos os anseios de corações que desejavam não viver sem sentido. Todos os desafios e as possibilidades desenhadas na vida para a qual voltavam queriam, na verdade, ser abraçados, encarnados. A experiência que os havia colocado naquele estilo de vida, dentro daquelas escolhas era extremamente exigente, mas completamente cheia de verdade, essa escolha os unia em um mesmo caminho, trilhado em lugares diferentes, de maneiras diferentes, mas que os levaria no final para uma mesma eternidade. Essa trajetória os deixava a vontade uns com os outros, gerava esse sentimento confortável de reciprocidade.

A voz da cantora cessou, o jantar acabou e eles saíram dali, carregando muitas coisas para refletir. No caminho para casa, mais sensações, filosofia de metrô, danças nos corredores, fotos cheias de sentido... Coisas de quem sabe viver, e sabe viver junto.

Nisso tudo ficam o pensamento, a sensação, a memória, e as palavras. Como é especial quando vivemos momentos que são registrados em nós como uma herança que não passa. Isso parece nos tornar mais humanos, mais próximos, mais vivos. A fé que une as pessoas que a comungam tem um poder singular de tornar especial o que é vivido por ela, pela fé e na fé. Partilhar momentos com quem entende a profundidade, simplicidade e importância deles gera essa calma feliz de quem pode relaxar e ser acolhido. Que bela coisa é essa jornada na qual a divina providência nos insere, é como aquilo que aquela trilha sonora cantava:

Que bela coisa uma jornada de sol
Um ar sereno depois da tempestade
Pelo ar fresco parece já uma festa
Que bela coisa uma jornada de sol
Mas um outro sol mais belo, ainda assim, o meu sol, está na sua fronte
O sol, o meu sol, está na sua fronte, está na sua fronte
Quando desce a noite e o sol deita-se
Me pega quase uma melancolia
Ficaria embaixo da sua janela
Quando desce a noite e o sol deita-se
Mas um outro sol mais belo, ainda assim, o meu sol, está na sua fronte
O sol, o meu sol, está na sua fronte, está na sua fronte
(Tradução de "O Sole Mio")

Em busca do sol que brilha onipotente e brilha na fronte do próximo a vida continua, como essa bela jornada de sensações, crescimento, morte e ressurreição. Uma jornada que pode ser partilhada com aqueles que encontramos no caminho e que estão caminhando na mesma direção. Jornada de finais, começos, desafios, surpresas agradáveis, mimos, e todo tipo de coisa. Jornada em que encontramos pessoas que caminham para lados opostos, e nelas descobrimos a alegria de anunciar a verdadeira direção. Jornada onde O Sol nunca falta! Afinal, Ele pode se pôr, mas nunca se apaga; e mesmo quando se põe, pode ser visto na fronte daqueles que caminham ao seu lado.



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Que seja Ela Exaltada

Ergue Tua Cruz Jesus! Deixa que Ela fique lá no alto, onde todos podem ver, onde todos podem se questionar, sobre Ela e sobre Ti, sobre si mesmos, e sobre tudo.

Ergue Tua Cruz Jesus, porque dissestes que quando fosses elevado atrairia todos a Ti, e dessa atração somos necessitados, deste sinal que nos arrasta somos dependentes.

Ergue Tua Cruz Jesus, porque Nela está a contradição que traz a mais perfeita harmonia à vida humana. Nela está a loucura extrema que traz a completa serenidade e paz a todo aquele que crê.

Ergue Tua Cruz Jesus, e mostra que a dinâmica da vida é contrária ao esconder-se, ao poupar-se, ao proteger-se. Mostra a liberdade e a libertação contidas Nela, contidas no Teu corpo unido a Ela.

Ergue Tua Cruz Jesus, e seja mais uma vez sinal de novo tempo, sinal de princípio, sinal de eternidade, nesse rompimento com limites e contingências do que calculamos como ontem, hoje e amanhã.

Ergue Tua Cruz Jesus, e com Ela eleva nosso olhar. Que não fiquemos mais presos ao que vemos e sentimos, nessa vida aparente e sedutora, que quer manter nossos olhos naquilo que acaba e logo é substituído por algo supostamente mais interessante. Com nosso olhar fixo Nela, sejamos livres do erro e do engano.


Ergue Tua Cruz Jesus e com Ela eleva nosso coração. Que os cravos que Te prenderam a Ela, penetrem também em nós, nos ferindo e nos unindo, ao caminho que, por alto preço, conquistaste para cada um. Caminho reto, caminho certo, caminho real.

Ergue Tua Cruz Jesus, e transcende toda a mesquinhez da nossa mentalidade. Transcende nossa compreensão de felicidade. Transcende nossa visão estreita e nosso medo de dar.

Ergue Tua Cruz Jesus, e Nela abre os braços para convidar toda a humanidade a Te experimentar. Que Teus braços abertos acolham. Que Teus braços abertos deem novo sabor e novo sentido a cada realidade que se deixa alcançar.

Ergue Tua Cruz Jesus, e sede exaltado. Por Ela nos ensina a viver, por Ela nos ensina a sofrer, por Ela nos ensina a morrer, por Ela nos ensina a ressuscitar.

Ergue Tua Cruz Jesus, e sede exaltado. Seja Ela um memorial de um Cristo vivo, cujo caminho conferiu verdadeira vida à nossa existência. Seja Ela um memorial que se renova a cada dia, que é visitado a cada dia, porque quem A toca sempre experimenta a novidade e o mistério inexprimíveis.

Seja exaltado em Tua Santa Cruz Jesus. Porque Ela é sinal do Teu amor que não poupou nada, amor que nos ensina a amar, entrega que nos ensina a entregar, vida que nos ensina a viver. Que diante Dela nosso joelho se dobre e nossa língua confesse que és o único Senhor. Que Ela permaneça Exaltada, para que compreendamos que absolutamente tudo não A pode superar. 


sexta-feira, 27 de março de 2015

1 espectadora satisfeita, 2 diretores criativos, 3 + lados de uma história

Faz tempo que não escrevo sobre filmes! Não sei exatamente porque, afinal, tenho assistido muitos, como de costume rs. Mas acho que o que faltava era exatamente o que encontrei nessas duas produções das quais resolvi falar. Bem, como sempre pensei e continuo pensando, filmes representam um gosto muito pessoal, que pode despertar impressões e relações diversas naqueles que assistem. As qualidades que encontrei em "Boyhood" e "The disappearance of Eleanor Rigby" eu descrevo a seguir, já me desculpando se por acaso você assistiu ou assistir um deles, e discordar totalmente do que irei escrever... rs
Para contextualizar devo dizer que eu amo cinema! Adoro tipos e gêneros variados de filmes. Gosto muito dos filmes blockbusters, gosto dos filminhos clichês, das trilogias épicas, dos heróis, das realidades futurísticas e dos que retratam a sociedade... Mas eu amo mesmo os filmes que conseguem tocar sentimentos e questionamentos do ser humano. Aqueles filmes que não tem reviravoltas espetaculares, que não tem explosões e perseguições que tiram o fôlego, mas que vão fundo naquilo que é real para todos: vida, duvidas e busca. Aqueles filmes com diálogos longos, sensíveis, simples ou complexos. E esses dois me ganharam nessa categoria! Devo dizer que quando assisto filmes assim, fico sorrindo por dentro diante da confirmação que realmente as pessoas não estão estéreis como a tendência negativa das massas querem nos convencer. Quando assisto filmes assim, me convenço que a beleza do ser humano de refletir sobre as pequenas coisas, ou as grandes crises, existe e pode ser retratada no cinema! Existe criatividade, sede, complexidade e esperança. Como pode-se ver, nessa parte dessa postagem você leu o testemunho de uma espectadora satisfeita, bem satisfeita rs. Agora vamos ao que interessa, os filmes e seus respectivos diretores criativos.

The Disappearance of Eleanor Rigby | 2013/2014 | Ned Benson
Dois lados do amor (no Brasil) | Tradução bem pobre do título, na minha humilde opinião

O filme escrito e dirigido por Ned Benson tem como protagonistas o casal Eleanor (Jessica Chastain) e Connor (James McAvoy). Esse jovem casal novaiorquino está tendo dificuldades em seu casamento por causa de um acontecimento trágico que desequilibrou emocionalmente e psicologicamente os dois. Não vou dizer aqui o que aconteceu, mesmo porque nem assistindo o filme você verá diálogos explícitos sobre o que realmente aconteceu... Essa é uma das belezas do filme. Algo aconteceu! Mas o foco não é o fato, o foco é como os personagens lidam ou evitam lidar com os resultados dele.
Eu estou falando aqui de 'um filme', mas na verdade, são 'três filmes'! Isso mesmo, três! Aí entra a criatividade de Ned Benson, um cara que eu nem conhecia e que em rápida pesquisa online, descobri que esse foi o seu primeiro projeto de longa metragem! Devo dizer, parabéns pela estréia Ned! Acontece que esse diretor teve a ideia de transformar seu 'um filme' em 'três', explorando a ideia que em relacionamentos, especialmente os amorosos, existem sempre perspectivas diferentes sobre uma mesma história. Benson lançou então, o mesmo filme em três versões: Him (Ele), Her (Ela), Them (Eles). A construção das diferentes versões é bonita por respeitar esse olhar pessoal dos personagens e porque, mesmo as cenas que convergem, são mostradas em ângulos diferentes. A versão 'Eles' é a comercial, nela obviamente, está a combinação das outras duas versões. Na minha opinião a versão comercial é a menos interessante. As versões 'Ele' e 'Ela' tem cenas extras, que dão mais sentido à trama e procuram permanecer fiéis à personalidade e sentimento do personagem explorado. 
Para levar quem está assistindo à um mergulho no sentimento humano, o filme conta com cenas bonitas, de poucas palavras e gestos muito significativos; com cenas em flashback mostrando como Eleanor e Connor foram ou são apaixonados; com cenas com diálogos filosóficos; com cenas de conversas onde as palavras tentam explicar, descobrir e aliviar os sentimentos de duvida e desespero. O filme fala de amor, de dor, de superação, de fuga. Fala de tentar, de falhar, de desistir, de recomeçar. Em resumo, o filme, ou os filmes, tentam captar esses momentos da vida que nos fazem tomar decisões nada fáceis. Adorei a interpretação de Jessica Chastain e James McAvoy, os outros atores não são muito conhecidos, e assim como a escolha do elenco, a trilha sonora também segue uma linha meio 'alternativa'. 
The disappearance of Eleanor Rigby é bonito, simples e sensível.

Boyhood | 2014
Boyhood - Da infância a juventude (no Brasil)


Filme escrito e dirigido por Richard Linklater. A história de Boyhood narra a vida de Mason (Ellar Coltrane) e sua família. E você poderia pensar, e daí? O ponto é que a produção levou 12 anos para ser concluída, isso porque o criativo Linklater, quis usar os mesmos atores e mostrar da maneira mais realista possível, o crescimento e a evolução dos personagens e de suas histórias. O enredo não traz nada de muito fantástico, estamos assistindo a vida de um menino, que tem pais divorciados, que aprende, vive, sonha e cresce. O filme Boyhood transforma uma vida simples em uma aventura interessante e intrigante. 

Um dos aspectos que mais gostei do filme foi o cuidado com a fidelidade com os acontecimentos contemporâneos. Vemos referências da situação política do país, a evolução dos vídeo games rs, as músicas populares de cada momento, os livros populares de cada momento. Há referências de cultura popular que passa por Bitney Spears, XBox, Harry Potter, tecnologia kinect, Saga Crepúsculo, Lady Gaga, Facebook... E mais, eles mencionam Star Wars pelo menos duas vezes =) ... Ponto para eles!!! 
Mason, o protagonista, não é um menino excepcional. Ele tem sonhos e talentos, mas não é um gênio! O aspecto de Mason que eu mais gosto, é sua sensibilidade e sua busca por descobrir quem ele é e o que quer fazer com sua vida... Acho que tendo o pai que ele tem, interpretado pelo ótimo Ethan Hawke, fica meio que fácil crescer com um espírito reflexivo rs. A parceria do diretor Linklater e do ator Hawke já é atinga... Sempre seguindo essa linha de filmes reflexivos (Before Sunrise 1995, Before Sunset 2004, Before Midnight 2013, que também adoro). Seria injusto não mencionar também a mãe de Mason, interpretada por Patricia Arquette, que ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por esse trabalho... Falando em Oscar, ainda não acredito que Richard Linklater não ganhou o de melhor diretor!!! A produção foi indicada à 5 Oscars, inclusive melhor filme.
Boyhood é de uma sensibilidade muito bonita! A maneira que o jovem Mason gosta de fotografia, de captar 'o momento', do como ele observa os acertos e erros dos pais e mesmo assim consegue construir uma personalidade própria, o significado dos presentes que ele ganha, do como ele se expõe à diferentes realidades e oportunidades na infância e adolescência... É impossível não se identificar com pelo menos um aspecto! Além de tudo isso, adorei a trilha sonora. Boyhood é original, íntimo, belo, e profundo de uma maneira sútil e simples.

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Agora que já cobrimos os pontos 1, 2 e 3 do título dessa postagem, é hora do " + "... As curiosas semelhanças!

+ Os dois filmes tem pouca ação e muito diálogo;
++ Os dois filmes não têm aquela conclusão fechada e direta;
+++ Os dois não entram na categoria 'filme típico', em nenhum sentido.
++++ Os dois fazem explícita referência aos Beatles! Eleanor Rigby é o nome de uma canção da banda. Em Boyhood, Mason ganha no seu aniversário de 15 anos, um CD dos Beatles de seu pai, o fato especial é que seu pai organizou e selecionou as faixas em uma ordem e lógica singulares. Ambas referências são tratadas nos filmes;
+++++ Como escrevi acima, ambas produções tiveram um diretor que também escreveu o roteiro.
++++++ Ambos posters oficiais mostram pessoas deitadas na grama hahaha



E devem ter mais semelhanças, que minha limitada capacidade de relações deve ter deixado passar... Eis aí mais uma beleza comum aos dois, sei que se assistir novamente, irei descobrir algo novo ;) 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Uma ideia, uma música, um café, um futuro

Olhava na tela o arquivo ainda em branco. Retorcia-se na cadeira tentando parecer bem-sucedido, não sabia para quem ou para quê, talvez para si mesmo. Não entendia porque estava tão travado... não era isso que queria? 

Era jovem, havia iniciado sua faculdade. O trabalho que o travava naquele momento era o primeiro que iria fazer. Precisava discorrer sobre 'perspectivas de qualidade vida e futuro de sucesso no mundo de hoje tendo em vista algumas correntes filosóficas que estava estudando'. Com leve desapontamento lembra-se que havia se gabado em sala com quem estava em volta, não lembrava quem... O fato é que havia se gabado dizendo que o trabalho era ridículo, que esperava mais da esfera acadêmica...

Pegou seu computador, foi àquele café que gosta de ir, colocou fones de ouvido, e ouvia Chopin tocando piano. Gostava daquele piano, suave e meio triste... Triste não era bem a palavra, não sabia definir, mas sentia que aquilo combinava com o momento. Assim como, o copo de café, a mesa daquele lugar com tons escuros, luminárias bonitas, sofás e pessoas pareciam combinar... Combinar com seu arquivo em branco?

Frustração! Era isso que sentia agora. De repente começou a se questionar se havia escolhido o curso certo, se havia escolhido a cidade certa. Só o que fica muito claro antes de sua decisão era a vontade de sair de casa. Foi precipitado? - Não! Balançou a cabeça desaprovando e afastando de si aquele pensamento. Enfim, era essa sua realidade agora e tinha que lidar com ela. E verdadeiramente o novo, o desafio, a independência, o incerto eram bem estimulantes. Havia um mundo de possibilidades. Estava em uma boa universidade, ali havia possibilidades de pesquisa científica, estágios, intercâmbios e mais... Mas se não conseguia escrever uma porcaria de trabalho introdutório como poderia sonhar em conseguir algo assim? 

Desafiando o arquivo em branco estala os dedos e escreve: "São numerosas as possibilidades de...". De o que? Parou, e o pensamento foi longe. Possibilidades, como as que analisava dia e noite antes de vir parar nesse curso e nessa cidade. Nunca entendeu porque as pessoas eram empurradas tão cedo a esse tipo de decisão. Estava preparado? Com o rosto subitamente empalidecido lembra-se do grande desconforto de seus pais a respeito de sua decisão. Lembra-se das inúmeras orientações e súplicas de sua mãe para que "não esquecesse quem ele era". Quem eu sou! Hum, um pensamento útil se falamos de filosofia, o mais clichê de todos. Mas ainda nenhuma ideia... 

Preso ainda no pensamento sobre os sermões de seus pais, pensa como seria divertido se eles soubessem o que dizem esses filósofos sobre os valores que eles sempre defenderam... Seria divertido ver o choque no rosto deles! Ahh nem tanto, seus pais eram pessoas esclarecidas, já sabiam dessas opiniões e nunca se viram desmoralizados por elas... Talvez fosse isso que o estivesse travando, as teorias em que deveria de basear eram contrárias ao que havia vivenciado até então. Será? Talvez fosse apenas um conflito de ideais. Absurdo! Não poderia deixar que isso fosse estritamente sobre sua experiência pessoal, tinha que ser mais... flexível?

Revisando alguns pontos daquelas teorias em que deveria se basear reafirmou o quanto discordava de tudo aquilo. É claro que haviam pontos obscuros, abertos para discussão, mas em uma visão ampla: discordância. O piano de Chopin estava especialmente lindo e melancólico agora... Gostaria de ter aprendido a tocar piano! Hum talvez ainda aprendesse... A verdade é que tinha essa ideia fixa que era muito velho para começar a aprender. Mas tinha outras metas em mente, muitas, muitos sonhos e planos. Sorriu... Seu sorriso era melancólico como a música que ouvia. Será que conseguiria fazer tudo aquilo que sonhava? Era realmente algo para se questionar, principalmente se considerasse que alguns de seus planos eram totalmente contraditórios à outros... Depois de alguns instantes de pensamento vago, percebeu que Chopin não estava mais tão melancólico, e ele decidiu não estar também! 

Qualidade de vida e futuro! Qualidade de vida e futuro? O que tinha a dizer sobre isso? E mais, o que tinha a dizer sobre isso à luz desses filósofos? A verdade é que eles não conferiam nenhuma luz. Não colaboravam muito com sua linha de raciocínio... Sorriu pensando que sua mãe diria: "Bravo"! Desde que havia chegado ali via tantas coisas que o faziam questionar os valores que tem, ou tinha, ou que tem ainda... É claro que não saía por aí comentando sobre suas opiniões, afinal, as pessoas são livres para fazer o que querem, não é? Mas algumas atitudes o afetavam mais do que gostaria. Em sua cabeça parecia tão simples que as pessoas não deveriam fazer coisas estúpidas que levam à desvalorização de si mesmas e à sucessão de eventos sem sentido. Opa, seus pais ficariam felizes de novo...

O fato é que se sentia profundamente privilegiado por ter crescido em um ambiente que lhe mostrava valores, que inspirava sonhos e metas, que tinha regras, bem irritantes às vezes, mas que o ajudaram a refletir e entender muitas coisas. Entendia que isso não era muito comum hoje em dia. Tudo é moderno e permitido. Nunca foi um perfeito obediente de regras, sempre questionou e lutou, mas sempre encontrou espaço para ouvir e ser ouvido. Achava que todos mereciam essa chance... mas afinal, o que tinha ele a ver com todos? Nada! Nada?

Mas não podia negar que era meio triste. Estava tão ansioso pela faculdade, pela vida adulta, e a maioria do que via lhe parecia perda de tempo. De repente ouvia em sua cabeça, as vozes dos dois caras com quem estava dividindo o apartamento: "Relaxa"! De certa forma compreendia que sua atitude e negação à certas coisas incomodava os outros. Não queria incomodar, queria ser 'cool', mas não queria deixar de ser quem era. Isso era tão irritante.

Festas e porres, relações casuais e total despreocupação com quase tudo, a não ser aparências. Nada disso o seduzia muito. É claro que algumas facilidades que já existiam antes e que se tornaram mais fáceis ainda eram bem interessantes... Sorriu, um sorriso malicioso. Parou. Não era isso que queria. O que queria então? Qualidade de vida e futuro de sucesso? Riu novamente. O problema é que as tendências que via ao seu redor e as ideias apresentadas por aqueles caras que ele tinha que estudar não estavam em consonância com o que imaginava ser bom... Chopin estava em consonância com o que estava sentindo agora - ele riu. Hum e aquele café também! Que havia acabado por sinal. Levantou-se e comprou outro. A moça que o atendeu tinha um sorriso bonito, ele a via ali regularmente, e gostava quando ela o atendia. 

De volta ao arquivo em branco! Totalmente em branco porque já havia apagado as poucas palavras que escreveu. Sentiu falta de casa, das promessas de futuro luminoso, do bom e do belo de que ouvia falar e experimentava em sua pequena cidade, nos círculos que frequentava. Estava tão longe de lá agora! Estava longe das pessoas queridas, dos aromas familiares, das conversas sobre o desconhecido. É certo que ele vivia o tal desconhecido agora, e não lhe parecia tão maravilhoso como imaginava. É claro que já conhecia todas essas realidades, esses conceitos que agora estuda, essas tendências que testemunha e que estiveram sempre ao seu redor. E quando não estavam ao seu redor estavam estampadas em capas de revistas, em jornais e programas, em modas e estilos musicais. Afinal de contas, não era nenhum alienado! Nada disso que o incomodava era surpresa, e então, por que o incomodava mais agora?

Talvez porque agora se sentia mais pressionado a se deixar levar pela maré que o circundava. Ahhh... Que irritação! Ainda bem que o café tinha um efeito de consolação impressionante. Pensou em seus sonhos, nas razões que o levaram até ali e nas teorias em que deveria se basear para escrever. Ninguém disse que ele não poderia discordar daqueles filósofos! Aliás, somente esse pesamento já o encheu de esperanças. Mas ainda não queria que seu texto fosse muito pessoal, não queria que fosse simplesmente algo sobre si... Refletindo um pouco, levantou as sobrancelhas e torceu a boca, e concluiu que não era definitivamente somente sobre si! Percebeu que o que pensava e acreditava eram realmente propostas para todos, especialmente para aqueles que estavam em seu convívio ultimamente. Ele acreditava naquilo! Acreditava em sua eficiência! Acreditava no luminoso, no bom, no belo. Sorriu...

Tomou mais um gole de seu café, percebeu que Chopin tocava mais animadamente seu piano, esticou os braços para frente, e com brilho no olhar e dedos rápidos, começou a escrever.