quinta-feira, 30 de abril de 2020

Que 2020 é este?


Faz tempo que não atualizo aqui. Os dias têm sido intensos. Queria registrar o quanto o ano de 2020 está sendo o mais imprevisível que já vivi. Mas o que eu queria mesmo dizer é o quanto tenho louvado por ter um sentido de vida. Percebi que isto é realmente uma âncora que não nos permite ser arrastados pelas crises.


Tudo parece estar diferente. Muitas limitações estão impostas neste tempo. Há várias inquietações sobre o futuro. Há medo sobre o presente e medo pelos que amamos. Há uma comoção pelas vidas perdidas. Há uma amargura no sentimento de impotência diante de tudo isso.

Frei Raniero Cantalamessa, pregador oficial da casa pontifícia, disse em sua reflexão na Sexta feira da Paixão desse ano que um dos efeitos da pandemia é que a humanidade está "saindo da sua ilusão de onipotência". Eu concordo! E esta sensação, mesmo para os que dizem ter esta certeza, é bem desconfortável. O que fazemos diante de uma situação da qual não temos controle algum? 

Tenho pensado muito sobre  a insegurança a respeito da verdade. O que é real? O que é manipulação? Quais são os meios seguros de saber a verdade? Eu não sei! Só sei que volto ao princípio: o sentido de vida me ajuda a sublimar todo este contexto. A verdade da minha fé é a única que tenho mesmo segurança que não me enganará. E nela eu devo me apoiar. E vemos uma crise de saúde se desdobrar em crise humanitária, crise política, econômica e etc. Um cenário triste!

Eu não sou onipotente. Eu não tenho controle sobre as situações e sobre as decisões dos outros. Eu tenho minha fé. Eu tenho um sentido de vida. E aquilo que creio é a única verdade em que me apoio. É essa a lista que repasso em minha mente, que deixo cair no meu coração. Ela me faz desejar alimentar a fé, manter viva a esperança, experimentar e comunicar o amor. Por isso eu suplico, por isso eu rezo! Diante de um contexto que me ultrapassa, recorro ao Deus que ultrapassa tudo.

Que este tempo, que passará, possa nos amadurecer, possa despertar solidariedade e o valor da vida em nosso coração. Que passe nos fazendo lembrar do que é essencial. Que passe e não roube a fé. Que passe e nos ensine a olhar mais para o outro, a cuidar mais do outro. Que passe e que nós permaneçamos firmes, ancorados em Deus.   


A esperança, com efeito, é para nós como uma âncora, segura e firme. Ela penetra até além da cortina do Santuário, no qual Jesus entrou por nós, como precursor, feito sumo sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec. (Hebreus 6, 19-20)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Caminho Sagrado


O Advento é um tempo de preparação para o Natal, vivido em quatro semanas pela Igreja Católica. Nesse tempo somos convidados à uma revisão de vida, ao despojamento e à uma expectativa feliz pela vinda de Jesus.

Refletimos não somente sobre a vinda de Jesus à Belém há 2 mil e tantos anos atrás, refletimos também sobre a segunda vinda de Jesus, sua vinda definitiva. Por isso, esse tempo também é um convite à conversão. 


Esse texto é resultado de uma experiência de oração durante esse tempo de Advento, que possamos seguir por esse "caminho sagrado" que a fé nos aponta, porque é esse o caminho da felicidade sem fim. 



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Exulto, rejubilo, estremeço ao ver jorrar
Uma fonte abundante na secura que havia aqui
Enchendo meus olhos, meus sentidos, vendo a glória transbordar
Anunciando que a promessa da salvação vai se cumprir

Intensa, inebriante, uma  onda de paixão envolve meu ser
Que parece rasgar-me e colocar aqui uma santa aflição
Ouço Seus passos e ao se aproximar meu desejo parecer crescer
Vem e transforma tudo, faz do caminho sagrado, minha morada, minha prisão

Prende-me aqui, onde habitas, onde está a recompensa divina
E eu grito de alegria ao ver Tua luz a refulgir
Minha impureza e rebeldia, Tua chegada cancela, extermina 
Nesse instante em que, generoso, a alegria eterna me faz sentir


Me fazes voltar do caminho perecível, vens revigorar, fortalecer
E ao me alcançar, com perplexidade, vejo que não me tomas pela mão
Entendo assim, essa angústia, essa ânsia, que de uma graça estranha vem me envolver
Porque ao me levar ao caminho sagrado, não queres me perder, e me seguras pelo coração

Então deixo que segures, aperte, faça do Seu jeito
Prepara-me para Sua vinda, que ao Te ver eu siga Tua direção
Que essa chama de amor jamais se apague em meu peito
Toma meus passos, minhas mãos, em tudo opera Sua recriação

Tua alegria, Tua ternura, se misturam com meu medo e humanidade
Mas Seu amor onipotente aceita meu sim frágil, e minhas resistências desarma
Insuficiente, mas provando do Teu encanto, que me apaixona pela Tua vontade
Rejubilo e me movo pela graça, que faz tudo em mim bradar: Vem verbo de Deus, se encarna!

sábado, 9 de novembro de 2019

Água









Escorre daquele Lado Aberto
Silenciosa e constante, vai os espaços alcançando
Cristalina, dinâmica, mostrando o caminho certo
Passa e tudo o que toca vai purificando

Como uma delicada nascente 
Que preenche o vazio e se move ligeira
Como uma poderosa torrente
Que desafia o que é duro e destrói a barreira

Submerge
Insere na corrente o que pretendia se desviar
Descongele
Passa sobre o que passou para ressignificar 

Traz abundância 
Verdadeiramente arrasta o que poderia se perder
Traz constância
Gradativamente aumenta o desejo de nesse fluxo permanecer

Torna salubre 
O que estava sujo e contaminado vem atingir 
Torna vivo
O que era estéril e jazia na morte faz ressurgir 

Atrai e conquista Sua simples beleza
Vede ao redor quanta vida nasceu
Ora mansa, ora violenta, Sua correnteza
Faz transbordar o bem que cresceu 

Às Suas margens pode-se encontrar 
Uma paisagem que contém o eterno em um momento 
Às Suas margens pode-se desfrutar
De folhas que são remédio, de frutos que são alimento 

Vai! Segue seu percurso, seu plano de salvação
Vai! E leva consigo tudo que precisa ser transformado 
Vem! Como Tu és, transparente e limpa torna a visão
Vem! E reconduz tudo àquela vida que escorre do Teu Lado.


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Sobre um Retorno

Havia passado da meia noite. O carro que haviam pedido pelo aplicativo dava voltas e voltas tentando chegar em sua casa. Isso porque havia um grande trecho de reformas naquela área. Pensou sobre o quanto era engraçado saber onde queria chegar, saber o caminho, mas não conseguir por causa das tantas barreiras... 

Após várias tentativas e rotas corrigidas, chegaram. Respirando fundo pensou: "voltei". E esse retorno fez com que pensasse em tudo que havia acontecido naquela noite. Concluiu que a dinâmica da volta fora conforme o acontecido naquelas últimas horas.

Começou a repassar os fatos na sua cabeça. Tinha ido meio sem vontade, insegura sobre como tudo ia ser. Numa luta consigo mesma para sair de si, ficar no conforto de si. 

Entrou no transporte público fretado, cheio de rostos conhecidos. Olhou pela janela o caminho todo, se questionando por um instante se sua linguagem corporal dizia incisivamente "mantenha distância", mas permaneceu assim... Os olhos miravam, sem muita contemplação, as cenas que passavam pela janela. A cabeça repassava suas preces, num esforço por fazer, pensar algo bom. Acreditando que suas preces pudessem contribuir com o que iria acontecer em poucos minutos.

O momento agradável, só seu, acabou. Chegaram! Mais rostos conhecidos. Cumprimentos e sorrisos. Entraram numa capela pequena para orientações. Pensou que havia passado por ali muitas vezes, mas nunca havia entrado. Foi impactada pelos ícones e figuras que encontrou. Realmente, simples e belo. A beleza da história de um homem fraco, que em suas quedas e voltas, realizou algo grande e bom para muitos. Era Pedro, e esse belo lugar chamava-se Capela São Pedro. Na parede os peixes em alto relevo, de diferentes tamanhos e cores, sugeriam o "mar de gente" que haveria de encontrar naquela noite. Sentiu-se apreensiva, angustiada, temerosa... mas as orientações acabaram e saiu! Era hora de sair!

Comeu um sanduíche que havia preparado mais cedo para esse momento, em pé ao lado daquela capelinha, já vendo um significativo fluxo de pessoas. Eram os peixes...

Saiu acompanhada de dois rostos conhecidos, saíram como quem vai fisgar peixes, mas não é pescador; como quem tem algo valioso a oferecer, mas que a maioria das pessoas não sabe que quer. Dentro de si a loucura de tudo aquilo despertava um misto de incômodo e satisfação. Foi!

O cenário daquele local perto da praia era algo de encher o olhar, completamente! Mas os olhos não se enxiam do que poderia ser considerado 'natural'. Não se ouvia o som do mar, não se contemplava a beleza do céu, não parava-se para sentir a brisa, nem para ver as ondas quebrando na noite. 

Era um festival, fervilhando de gente, principalmente jovens. Via-se no local variadas formas de ser e de se expressar. Havia muitos em situações que não considerava muito positivas... Pensou naquilo que havia trazido para eles, e eles não sabiam. Que loucura! 

Falou com algumas pessoas. A cada conversa um universo, uma opinião, um ponto de vista, digno de respeito e reflexão. Oferecia o que havia trazido, sempre pensando se havia apresentado o que trazia da maneira certa...

A cada cena daqueles que contemplava de longe, a cada interação com aqueles que tratava de perto, muitas perguntas emergiam em seu coração, questões que inspiravam diferentes sentimentos. Sentiu compaixão, sentiu medo, sentiu-se profundamente agraciada, sentiu-se responsável, sentiu esperança, sentiu também temor da ausência dela.

Naquela noite falou sobre relações, sobre perdão, sobre confiar nos outros. Falou sobre estilo de vida, sobre encontrar algo que valesse a pena investir a vida, sobre sorrisos que revelavam alegria autêntica. Falou sobre filosofia, sobre mídias sociais, sobre grandes sonhos que nascem no coração e que podem ser realizados. Falou sobre muitas coisas, sobretudo sobre histórias de vida... da sua e da deles.

Repassando essas memórias lembrou-se, mais uma vez da dinâmica do retorno para casa... Realmente havia sido aquela a regência da noite inteira: saber onde quer chegar, saber o caminho, mas dar voltas e voltas, recalculando rotas, para atingir a meta. 

Lembrou-se também dos peixes em alto relevo naquela parede sacra... Não trazia os peixes nas mãos. Não os trouxe consigo no final da noite. Deu-se conta que deixou mais do que havia trazido. Deixou lá naquele lugar, naquelas conversas, naquelas pessoas: si mesma, deixou os sentimentos que estavam em si naquela ida desconcertante, deixou sua história naquelas palavras dadas aos ouvidos do outro, deixou o tesouro que havia trazido para compartilhar.

Nesse instante, mudou de opinião! Havia sim trazido muita coisa, não trouxe peixes nas mãos, de fato. Mas trouxe histórias no coração, trouxe sentimentos novos, trouxe um tesouro ainda maior do que o que havia levado. Poderia dizer numa frase estranha, mas que fazia muito sentido naquele momento, que 'trouxe na volta o próprio retorno'. Um retorno ao essencial, um retorno cheio de questões dentro de si, que geravam um movimento de vida. 

Que belo retorno, em suas voltas, e até revoltas, cujos caminhos podem ser cheios de obstáculos e mudanças, mas o fim permanece firme. O fim é sua casa, seu lar. O cálculo sobre ter deixado mais ou ter trazido mais, perdeu a importância. Só desejou não se esquecer daquela experiência, desejou não esquecer que era sempre preciso retornar. Retornar para ir cada vez mais longe.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Sabor

O paladar já sentiu, já provou diferentes sabores
E o gosto definiu, pelo comprovado, o que mais o atrai
Porém apresentou-se um outro, acompanhado por harmonia e cores
Diante deste tudo se cala, o que é inferior se retrai

Que é isso que sendo novo parece tão familiar?
Que encanta, que dá sentido ao todo que antes fora experimentado?
Corre, afasta tudo que possa esse divino gosto roubar
Voltem-se os sentidos para fruir da delícia que escorre do mistério encontrado

Olha, contempla, vislumbra por um instante
Neste momento em que o mais alto deixa-se atingir
Saboreia, permita-se envolver por essa Paz inebriante
Pelo gozo, puro e sublime Dele emanado, deixa-se conduzir

Sente então que sempre esteve ali, o seu rastro o seu sinal
Que ao tocar o paladar da alma o gosto despertou a Verdade
Suspira, arrebatado por um princípio em que não se encontra final
Exala gratidão porque desde já, te beija a eternidade.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

A Marvel e o Endgame na minha vida

Não consegui decidir se iria falar sobre minha 'relação' com a Marvel, ou se iria falar de Endgame, o filme mais comentado do momento, e a segunda maior bilheteria da história mundial (até agora, porque acho que vai subir). Como não houve decisão, vou falar das duas coisas mesmo... Ahhh e importante dizer, tem spoilers nesse texto! Então se não assistiu o filme, não leia.

Sempre gostei dos super heróis, desde os desenhos da infância, passando pelas séries americanas da TV aberta, evoluindo para os longa metragens nem tão populares, chegando aos poderosos blockbusters. Acho fascinante a jornada do herói: a descoberta da missão, os sucessos e fracassos do percurso, a vitória final.

Falando em "Jornada do herói", já ouviu falar em Monomito? Segundo o antropólogo Joseph Campbell, escritor do livro "O Herói de mil faces", de 1949, essa forma de construção narrativa é encontrada nas principais histórias da humanidade!!! Campbell fala da jornada basicamente em três partes: a partida, a iniciação e o retorno. O herói vive algo fantástico, extraordinário, ele luta, vence, e aprende com o que viveu. Mesmo nesse contexto de fantasia, esse caminho encontra eco nas mais diversas situações da vida. Show!

Quem nunca sonhou em ser herói? Quem nunca desejou viver uma grande aventura e triunfar demonstrando grandes habilidades? Não sei você, mas eu já sonhei com isso inúmeras vezes, e continuo sonhando...

Para mim, esse eco que o heroísmo fantasia encontra na vida ordinária reflete uma sede de infinito presente no ser humano. Não estou falando de um sentimento megalomaníaco, estou falando de imaginação, de empolgação, de desejo de viver de verdade, de ver a grandeza mesmo das pequenas coisas, de enxergar valor e potencial nas 'missões' do dia-a-dia. Aí é traçado um paralelo entre a vida real, e o percurso das histórias dos heróis. Isso me lembra quando estudei "A poética de Aristóteles", aquela coisa de mímese e verossimilhança, a imitação da vida, o contar uma história que não existe, mas relacioná-la ao real.

Chega de conceito! Vamos para o efetivo e afetivo! Eu sou fã de Marvel porque em uma década, eles desenvolveram histórias de vários personagens, unindo esses heróis em alguns momentos, expandindo mais a trama cada vez que isso acontecia, entrelaçando roteiros, deixando pistas de um filme em outros filmes, e criando um universo criativo que prende a atenção e envolve quem acompanha o desenrolar das aventuras sempre bem produzidas. Além disso, os filmes da Marvel exploraram aquilo que o fã sempre quis ver: como o herói vive depois da missão, como ele se relaciona com o mundo, o que ele faz quando não está salvando o mundo. Isso estreita a relação do personagem com quem assiste, fica mais fácil relacionar a 'aventura da minha vida', com a vida dele.

Foi uma década genial! Uma cultura pop com conteúdo bom. Digo isso porque pode-se assistir as produções e enxergar valores: existe amizade, dignidade, busca pelo bem, pelo que é certo, pelo bem do outro. Mesmo explorando figuras tidas como 'anti-heróis', era possível acompanhar o desenvolvimento desses personagens meio perdidos e traumatizados, havia esperança de mudança de vida, de melhora, de progresso interior.

Posso dizer que ao longo dessa década, que se estendeu para o décimo primeiro ano da mega trajetória (2008-2019), eu vibrei, me diverti, sonhei, me envolvi com as histórias... Eu assisti vídeos de comentários e teorias sobre as histórias (pois é), vi o mesmo filme muitas vezes, conversei sobre os roteiros, opinei sobre o que achei bom e o que achei ruim (como se minha opinião contasse alguma coisa), e esperei, fui envolvida na expectativa... E é óbvio que não fui a única, afinal de contas o MCU (Marvel Cinematic Universe) ganhou bilhões de fãs (e de dinheiro) ao redor do mundo, e fez com que um filme de herói fosse indicado ao Oscar pela primeira vez na história! Muitas marcas e recordes. 

Mas chegou o final: "We're in the Endgame now". Vimos heróis virarem pó, num final dramático de "Guerra Infinita" e esperamos pelo filme "Ultimato" cheios de esperança que os heróis voltariam e salvariam o mundo. E mais uma vez a Marvel entregou a história magistralmente para seus fãs, muito "fan service" como dizem os youtubers de canais geek kkkk. Uma vitória que ecoou na vida porque não veio simplista: veio com sacrifício, com decisões difíceis, com superação, com cooperação, com uma missão não individualista, mas em que cada um fez sua parte.

Ultimato é criativo e emocionante. Ele explora toda a carga afetiva que criamos com os personagens durante os 11 anos de filmes, e desenvolve a trama de maneira tão interessante que você não sente as 3 horas de filme passarem, aliás, você não quer que acabe!

Destaque para a interação dos personagens com as cenas dos filmes anteriores quando eles voltam no tempo. A produção teve o cuidado de usar as mesmas cenas, em ângulos diferentes, que delicadeza! E o encontro de Tony Stark com o pai, em uma bela oportunidade de cura da história de vida. E o Capitão América levantando o Mjolnir, sempre soube que ele era digno kkkk! O sacrifício da Viúva Negra e do Homem de Ferro pelos outros. E tantos outros momentos!!!

Falando em acabar, acho que está na hora de parar de escrever. Nem falei tanto de Ultimato, mas acho que deu para entender que eu recomendo! Um filme de marcar época! Agora o futuro é incerto. Ultimato foi o fechamento de 11 anos que me cativaram. Não sei se vou concordar com a maneira que a Marvel vai trabalhar a partir de agora e com os aspectos que eles pretendem explorar... Não sei!

Só sei que vou continuar admirando as produções que fazem com que a vida encontre eco na jornada do herói. É bom esse desejo de viver a vida com uma missão, de não chegar à vitória sozinha, de me envolver com cada acerto e erro do caminho, de aprender durante o percurso, de lutar pelo bem, pelo que é digno, pelo bem do outro.

No final, o cristão tem um pouco (ou muito) do herói... A diferença é que nossos super poderes não são nossas habilidades por elas mesmas, nosso poder é a graça de Deus que nos move, e que santifica nossas habilidades em vista do bem de todos.

Avante!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

DJ

Estava numa convenção da qual deveria participar. Hipoteticamente era uma oportunidade de formação e aprendizagem. Entre palestras, painéis e workshops o dia terminava naquele coquetel, que não entendia porque deveria fazer parte do pacote 'formação'... Sem querer ser a pessoa anti social, não questionou a necessidade da presença ali, acolheu o todo que a providência havia lhe preparado.

Vista para o mar, na cobertura de um pequeno hotel, era, de fato, muito belo. A maresia tornava o clima exterior curiosamente parecido com o interior: agradável, e ao mesmo tempo desconfortável. Ria por dentro de toda a situação procurando um evento interessante naquela noite.

Bebidas, salgados, pessoas, luzes, uma pista de dança e um DJ solitário. Começou a prestar atenção naquele homem ali, no meio daquelas luzes todas. Parecia uma caricatura. Ele tentava se mover, levantar os braços, curtir tão intensamente a música, como se uma platéia numerosa estivesse inserida em sua 'vibe'. Mas, de fato, não estavam, não havia ao menos uma pessoa dançando.

E mais ainda, olhou ao redor, aquele olhar discreto, mas analítico, e percebeu que ninguém dava sinais de engajamento na dita 'vibe' do desolado DJ. Compadeceu-se dele, porém também não lhe fez companhia na dança e na empolgação.

Estava com algumas pessoas que conhecia, mas não tinha intimidade com nenhuma delas. Conversas aleatórias, comentários sobre o dia, sorrisos, tudo dentro da etiqueta social daquele momento. Um deles tinha o claro objetivo de networking naquele lugar e, com certa constância, saía para cumprimentar e fazer-se visto.

Tentou mergulhar nas simples conversas ali, mas logo viu-se novamente intrigada com o DJ. Foi quando, de repente, ele mudou de maneira drástica o estilo musical, mas continuou com o mesmo movimento corporal. Ainda caricato, com caras e bocas, levantando os braços. Da observação concluiu-se que a todos os estilo musicais se impunha uma só maneira de dançar!

Nessa observação que começou divertida, encontrou o evento que marcava sua noite de coquetel. Esse DJ ilustrava um sentimento bem típico e sobre isso começou a divagar... Sabe quando você está tão absorvido em uma situação que não se importa se o mundo não está naquele sentimento com você? Era essa umas das ocasiões à que isso remetia.

Mas não só isso. Pensou que a nossa vida, muitas vezes, poderia ser comparada ao trabalho de um DJ. As escolhas que fazemos, as decisões que tomamos, definem a música que será tocada. Decidimos e soltamos o som. Como foi uma escolha que fizemos, pelo menos a princípio, parece a melhor escolha do mundo. E por falar em mundo, poderíamos dizer que o mundo é aquela pista de dança, e o som que o DJ executa pode ou não reverberar de maneira que os outros decidam dançar, curtir, aprovar. O DJ quer defender suas posições, por isso se move, dança, ergue os braços e quer testemunhar para todos que aquilo é bom, quer convidar todos à sua pista de dança.

Pensou também o quanto isso pode ser um canto de sereia, ou seja, um som que engana que não é verdadeiramente bom. Cada pessoa, cada DJ, vai tocar sua canção e querer que o resto do mundo se engaje naquele ritmo, mas aí entra o fato desse DJ inspirador ser tão caricato... Na vida, podemos reverberar nosso som, vender nossa ideia com nosso corpo e com todo nosso ser, mas será que o que se ouve é uma melodia real, que quer atrair os outros para algo bom?

Enfim, sem querer esgotar a reflexão, e muito menos pensar no pobre DJ como um vilão, viveu o resto daquela noite tentando se envolver mais na conversa, mas permanecia absorvida no questionamento: que tipo de música tem tocado em minha pista de dança? Desejou em silêncio que seu som se propagasse com uma melodia que fosse muito atraente, mas não atraísse para si. Que ecoasse o ritmo da Verdade, do Bem, da Beleza, que fizesse com que quem entrasse em sua pista de dança fosse transportado para um sentimento que transcende essa realidade tão sujeita à enganos, superficialidades e imagens fabricadas. Que não fosse de um jeito caricato, mas que seu entusiasmo fosse autêntico, que se movesse com um dinamismo coerente, que seus gestos comunicassem a alegria de estar envolvida em uma canção que não acaba quando os outros desaprovam, quando vão embora, ou quando a luz se apaga. Uma canção eterna, uma canção real. 

Se fosse DJ era isso que queria tocar, e encher sua pista de dança de uma festa que não tivesse um fim em si mesma. Enfim, pelo menos dentro de si, aquele coquetel terminou com um saldo positivo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Tesouro

Um homem encontrou um tesouro escondido no campo
Alegrou-se e o escondeu novamente, porque o queria possuir
Vendeu tudo o que tinha pois nunca havia encontrado algo que desejasse tanto
Tudo investiu, o campo com o tesouro adquiriu, com ninguém o quis dividir

Um negociante encontrou uma pérola de grande valor
Rapidamente vai, vende tudo, porque quer ter recursos para ela comprar
Sua pressa denuncia o medo de perde-la para outro mercador
Quer somente para si a pérola fina que vivia a buscar

Quem é esse homem, quem é esse negociante senão eu?
Buscando algo, alguém, que encante meus olhos, que eu queira ter?
Esticando minha alma, meus braços para alcançar o que seja meu
Numa ânsia na qual a posse se impõe como um sinônimo de vencer


Que vitória é essa que aparenta ser plena mas é vazia?
A voz divina sussurra ternamente querendo ensinar
Por que seria vão se o controle e a posse me alivia?
A voz amável insiste que meu lícito desejo precisa se reorientar

Não consigo! Olha e vê como tudo em mim pede controle e certeza
E o Deus que me chama quer me inserir no abandono
Tanto eu lutei para erguer meus muros e proteger-me em minha fortaleza
E Ele destrói as falsas seguranças e edifica em mim Seu trono

Eu reclamo os direitos daquele homem e daquele negociante
O Senhor sorri e diz que é isso mesmo que Ele quer me dar
E caindo em mim percebo, com uma dor lancinante
Que a prisão está no meu modo errado de querer ter, de querer amar

Abre a prisão! Quebra os muros! Me ensina a liberdade!
Se eu quiser possuir algo que seja o Reino do Céu
Que meus sentidos e meus desejos se orientem para a santidade
Que cesse a ilusão, que a Verdade remova do engano, o véu

Aqui está o desejo de ter tudo em minha mão
Aqui está a ansiedade de querer minha vida resolver
Aqui estão os planos, paixões, e batidas descompassadas do meu coração
Toma Senhor! Ao Seu jeito, à Sua Vontade quero me submeter

Entendo que sempre existirá esse desejo inquieto de possuir
Mas que eu deixe livre o criado e me agarre ao Criador
Que no tesouro real, na pérola preciosa, eu possa tudo investir
Que a sincera busca pelo céu, me ensine a encontrar e viver o Amor.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Refletindo Contrastes

Amor imperfeito, todo tipo de imperfeição é só o que tenho a oferecer ]
Suas entranhas se contorcem, expressando por mim, um ato de misericórdia profundo ]
É constante o Seu falar e Seu cuidar, mas nem sempre consigo Suas graças acolher ]
Muito presa às idolatrias, agitada pelos barulhos do mundo

Meu orgulho, buscando sempre ser invencível, faz com que eu me canse de mim
Sua mão constante e humilde permanece, amorosamente, a direção apontar
Sem jeito, sem muito saber, eu trilho o caminho do qual não vejo o fim
E Sua bondade valoriza todos os meus passos e derrama vigor em meu caminhar 

O que vejo são lembranças, atitudes, no ontem e no hoje, que acusam a minha imaturidade ]
Seu olhar nunca me condena assim, e a partir dele queres me definir
Eu desejo, me encanto, mas pareço ser incompatível com a Tua santidade
Me falas ternamente das marcas da Tua criação e incansável, Teu rosto em mim vens imprimir ]

Eu mitigo oferta, e ao invés do abandono, eu escolho o domínio
Paciente Tu esperas, me conquistas, me atrai, com desconcertante liberdade
Sua proposta não esconde nada e questiona das minhas ilusões o fascínio
E pela fé, que lentamente cresce, Tu me mostras o alívio de render-me à Verdade 

Me falas de coisas que não passam, queres me fazer enxergar Tua transcendência
E eu me vejo ainda apegada ao transitório, ao exagerado, ao racional
Teu Santo Espírito sempre vem em meu socorro, para iluminar minha consciência
E volto, humilhada, reconhecendo minha dificuldade de ver além, meu olhar natural 

Eu tendo à escolher o que me parece belo, bem sucedido, inteligente e interessante 
Seus valores são outros, não pensas como eu, queres o pequeno, dócil e esvaziado
Focada no que posso entender e controlar, perco de vista o que para Ti é importante
Mas Teu caminho supera o que eu definia como beleza, sucesso e lógica, em um Crucificado ]

Sempre sonhei amar e idealizei que o amor me satisfaria, trazendo prazer e conforto
Tu me amas real e concretamente, e mostras que isso comporta decisão e sacrifício
Minha visão romântica se rebela, vendo escorrer a fantasia do que fora construído no meu coração e no meu corpo ]
E me inseres num mistério de Amor sem medidas, que de contempla-lo, me percebo somente no início ]

Como pode ser? O que há de se fazer? Se parece que eu não sei ser assim. Se entre nós só há contrastes ]
Eu falho, tento, vou e volto, e minha fragilidade e inconstância, fazem-me carregar uma perene dor ]
Seu olhar puro, calmo e firme vê a Imagem e Semelhança que em mim criastes ]
Vejo que não há mais para onde ir ou o que fazer, a não ser completamente me rasgar diante da Verdade, da Misericórdia, do Amor ]

Eu grito: o que te falta, ó minha alma? O que da falta podes reclamar? 
Não recebeste Vida, Igreja, dons infusos, carismas incontáveis e redenção?
Tudo te foi dado, como podes não se conhecer, na ignorância se fechar?
Não te bastam os sacramentos, as virtudes, de Maria, dos anjos, dos santos a intercessão?

Mas já sabias de toda a minha fraqueza, ó Deus providente
Conheces minha dificuldade de Teu Amor corresponder
Mesmo assim nada retém, e a mim tudo entregas generosamente
Que eu confie em Ti e não em mim, para que esses contrastes possas vencer 

E nisso, vejo um reflexo imperfeito, mas de uma perfeição almejada
Tudo começa, tudo termina em Ti e falas que não há razão para temor
És paciente e compassivo e em Ti minha alma sempre encontra morada
Louvor Aquele que espera, perdoa e compreende, minha busca atribulada pelo Divino Amor ]

sábado, 30 de junho de 2018

Reminiscências de uma vida que nunca tivera


Nos últimos dias repassava involuntariamente as muitas memórias e aspirações de um quê sem raiz, sem futuro, mas que se impunha de modo tão forte, que parecia inevitável.


Sonhos! Desejos! Imaginação! Ilusão! Quanto poder o que não tocamos pode ter, como se quisesse tornar-se palpável, vencendo pelo cansaço aquele interior que luta de maneira inútil contra o que não existe, porém tem cores extremamente reais.

Era dolorido perceber que não havia superado, ainda, fatos que esperava terem sido resolvidos. Sentia-se como uma pessoa presa por elásticos, que caminhava, caminhava, caminhava, mas em certo ponto, era impulsionada para trás, como se o elástico esticado, a prendesse e dissesse que seu lugar era lá, no início.

Que frustrante! Não queria aceitar essa derrota, não queria manter-se limitada por aquele sentimento que a jogava para trás, para o passado, para o que já fora vencido. E, realmente, a vitória aconteceu? Pensar nisso trazia aqueles suspiros longos, profundos e preocupados. Não era aceitável esse tipo de estagnação, que gerava um retrocesso nada proveitoso, que gerava desejos vãos.

O desejo parecia ser o problema! Desejos! Por que parecia que seu juízo sempre dava mais brilho ao que não era luz verdadeira? Por que era tão atraída por aquilo que sabia que não condizia com o caminho que aprendera, que assumira, que aceitara como seu, como dom, como dádiva?
Incoerência. Inconsistência. Não queria ser assim. Não queria continuar assim. Mas o canto da vida que não era sua, continuava entoando doces e inebriantes melodias, seduzindo, chamando... enganando.

Basta! Não mais permitiria ser iludida assim. Resolveu lutar, mas não estava certa de que saberia usar as armas dessa batalha. Afinal, as armas revelavam a exigência do caminho, que era certo, porém extremamente comprometedor.

Numa dor visceral, num combate que parecia dividir seu ser em dois, encontrava-se na iminência de uma decisão. Decidiu libertar-se dos elásticos, decidiu não render-se as luzes artificias da sedução. Decidiu assumir o caminho árduo e ascético.

Mas parecia que seus sentidos não comungavam todos da mesma decisão. Alguns continuavam correndo em outras direções, cansando a alma, desgastando suas forças, confundindo o que já era decidido.

Como podia sentir tanta falta de algo que não existia? Achava-se louca, as vezes. Uma coisa era inegável: sua imaginação era realmente fértil. Era uma melancolia que transparecia uma certa aflição em seu rosto. Uma tensão que transbordava em um modo de falar e agir do qual não se orgulhava. Como se sua alma gritasse por socorro, mas seu corpo rejeitasse tudo que se aproximava para ajudar.

Cansada de querer o que não era real, de sentir o que não era nobre, de sonhar o que era simples fantasia. Cansada de ver claramente por onde deveria andar, que virtudes deveria ter, que sementes deveria plantar, mas dar um passo para frente e dois para trás, numa aparente incompetência irritante, desgastante.

E o que mais era constrangedor nas reminiscências dessa vida que se esticava para alcançar mas nunca tivera, é que a Vida, real, plena, valorosa, continua humilde, sólida, paciente, amante, esperando uma resposta generosa e determinada de seu ser tão obtuso.

Quanta esperança! Quanto amor! Quanta misericórdia! Fechou os olhos por um instante e suplicou interiormente que a vida que nunca fora sua, jamais roubasse a vida que estava a sua frente pronta para ser abraçada e vivida, com seus desafios grandiosos, mas sua plenitude infinita.