Para aqueles que estão visitando, sejam bem vindos!

Esse blog nasceu da necessidade de praticar os atos de escrever e refletir, bem como da vontade de compartilhar pensamentos e ideias.

Confesso que não é a primeira vez que tento manter um blog. A tentativa, aliás, durou pouco tempo... Resolvi tentar de novo, porque fiz o propósito de escrever com mais constância.

Nisso já vejo uma primeira mensagem que quero deixar para aqueles que por aqui passarem:

"Comece de novo! Faça de cada dia uma nova oportunidade para inovar, crescer, aprender e criar"

terça-feira, 5 de junho de 2018

Reminiscências de uma vida que nunca tivera

Nos últimos dias repassava involuntariamente as muitas memórias e aspirações de um quê sem raiz, sem futuro, mas que se impunha de modo tão forte, que parecia inevitável.
Sonhos! Desejos! Imaginação! Ilusão! Quanto poder o que não tocamos pode ter, como se quisesse tornar-se palpável, vencendo pelo cansaço aquele interior que luta de maneira inútil contra o que não existe, porém tem cores extremamente reais.
Era dolorido perceber que não havia superado, ainda, fatos que esperava terem sido resolvidos. Sentia-se como uma pessoa presa por elásticos, que caminhava, caminhava, caminhava, mas em certo ponto, era impulsionada para trás, como se o elástico esticado, a prendesse e dissesse que seu lugar era lá, no início.
Que frustrante! Não queria aceitar essa derrota, não queria manter-se limitada por aquele sentimento que a jogava para trás, para o passado, para o que já fora vencido. E, realmente, a vitória aconteceu? Pensar nisso trazia aqueles suspiros longos, profundos e preocupados. Não era aceitável esse tipo de estagnação, que gerava um retrocesso nada proveitoso, que gerava desejos vãos.
O desejo parecia ser o problema! Desejos! Por que parecia que seu juízo sempre dava mais brilho ao que não era luz verdadeira? Por que era tão atraída por aquilo que sabia que não condizia com o caminho que aprendera, que assumira, que aceitara como seu, como dom, como dádiva?
Incoerência. Inconsistência. Não queria ser assim. Não queria continuar assim. Mas o canto da vida que não era sua, continuava entoando doces e inebriantes melodias, seduzindo, chamando... enganando.
Basta! Não mais permitiria ser iludida assim. Resolveu lutar, mas não estava certa de que saberia usar as armas dessa batalha. Afinal, as armas revelavam a exigência do caminho, que era certo, porém extremamente comprometedor.
Numa dor visceral, num combate que parecia dividir seu ser em dois, encontrava-se na iminência de uma decisão. Decidiu libertar-se dos elásticos, decidiu não render-se as luzes artificias da sedução. Decidiu assumir o caminho árduo e ascético.
Mas parecia que seus sentidos não comungavam todos da mesma decisão. Alguns continuavam correndo em outras direções, cansando a alma, desgastando suas forças, confundindo o que já era decidido.
Como podia sentir tanta falta de algo que não existia? Achava-se louca, as vezes. Uma coisa era inegável: sua imaginação era realmente fértil. Era uma melancolia que transparecia uma certa aflição em seu rosto. Uma tensão que transbordava em um modo de falar e agir do qual não se orgulhava. Como se sua alma gritasse por socorro, mas seu corpo rejeitasse tudo que se aproximava para ajudar.
Cansada de querer o que não era real, de sentir o que não era nobre, de sonhar o que era simples fantasia. Cansada de ver claramente por onde deveria andar, que virtudes deveria ter, que sementes deveria plantar, mas dar um passo para frente e dois para trás, numa aparente incompetência irritante, desgastante.
E o que mais era constrangedor nas reminiscências dessa vida que se esticava para alcançar mas nunca tivera, é que a Vida, real, plena, valorosa, continua humilde, sólida, paciente, amante, esperando uma resposta generosa e determinada de seu ser tão obtuso.
Quanta esperança! Quanto amor! Quanta misericórdia! Fechou os olhos por um instante e suplicou interiormente que a vida que nunca fora sua, jamais roubasse a vida que estava a sua frente pronta para ser abraçada e vivida, com seus desafios grandiosos, mas sua plenitude infinita.

sábado, 17 de março de 2018

O Bolo

Photo by Unsplash
Era um domingo. Dia feliz, dia especial, dia mais importante da semana, e assumia, com contentamento essa perspectiva da importância do dia, dada por sua fé. Naquele particular "Dominus Dei" estava na cozinha preparando as refeições.

Resolveu fazer um bolo de chocolate. Depois de toda a bagunça do almoço, ainda não parecia incômodo lançar-se em mais um evento culinário. Ao contrário, a perspectiva do bolo com café amargo era muito motivadora. Focando nesse momento futuro, embarcou na missão. Resolveu fazer de uma maneira diferente do que de costume. Sempre se impressionava com a variedade modos encontrados na internet de fazer uma mesma coisa, a criatividade humana sempre lhe causara essa agradável sensação de surpresa. 


Tudo feito, colocado no forno recentemente reformado. Aliás, lembrou-se que era a primeira vez que ele era utilizado após troca de uma peça. Isso causou certa insegurança a respeito do resultado, mas o pensamento logo passou. Enquanto assava seu bolo, resolveu fazer outras coisas na casa.  Mais uma situação que sempre lhe causara uma sensação de surpresa, mas não tão agradável como a outra mencionada, era como sempre havia coisas a fazer e resolver em uma casa. Era uma tarefa interminável!


Quando era tempo de tirar do forno se aproximou da cozinha e sentiu um aroma não tão agradável... "Queimou", pensou. E de fato, a temida falha aconteceu. Um sentimento de frustração reinou naquele momento. Aconteceu aquela comum avaliação de inúmeros "se"... Se eu não tivesse ficado longe da cozinha, se eu tivesse levado em conta que esse forno sofreu uma reforma recentemente, se... Mas, estava feito.

Deixou esfriando e foi fazer uma ligação. Enquanto estava naquele diálogo que era necessário e agradável, percebeu o quanto estava ainda chateada com a questão do bolo, isso transparecia na sua pouca paciência na conversa. Ficou incomodada ao concluir o quanto algo tão pequeno causou tamanho impacto. E daí que o bolo queimou? Mas a pergunta retórica não aliviou a frustração. E mais ainda, a pessoa do outro lado conseguiu captar sua impaciência, e perguntou se havia algo errado. Com embaraço por não querer admitir que toda a insatisfação era por um bolo queimado, negou! "Está tudo bem"!

Ligação terminada, bolo já esfriara, e mesmo com partes queimadas, o objetivo de comê-lo com café amargo foi atingido. Entre goles e mordidas, pensava no quanto o desejo por controle gera uma falsa impressão de que somos soberanos em nossa vida. Viu-se a tola que quer controlar o que está dentro e o que está fora, que quer controlar os resultados, dos mais simples, aos mais complexos. Que engano!

Porém, mesmo admitindo o engano, não deixava de ver dentro de si aquele rastro persistente de querer ter poder sobre o que acontece. Como pode? Planos, reflexões, preparação, moldes, treinamentos, estratégias, receitas! Quantas coisas criamos para minimizar ou erradicar a possibilidade do erro. E isso tudo não seria uma máscara para a insegurança, o orgulho, o perfeccionismo? Identificava isso em si, não tendo certeza da exata medida, mas estava lá.

Controlar, dominar, ter poder... Como o ritmo da vida empurra para a noção que de se deve ter controle, domínio e poder. Isso é sucesso? Isso é satisfação? Pode ser que dentro de si, bem lá no fundo, esteja enraizado esse conceito, mas não é bem assim! Pensou que os pontos mais essenciais de um ser não é determinado por seu controle, e é o que se tem de mais precioso. Não se controla, por exemplo, a identidade e a vocação, elas são dons a serem descobertos, abraçados e trabalhados, mas não controlados, com rédeas e meticulosidade. 

Escolhemos os ingredientes, definimos as medidas, colocamos a mão na massa, seguimos uma receita, damos o nosso toque final, mas nunca temos a certeza de como será o resultado. 

E assim seu café da tarde, naquele "Dominus Dei" tornou-se momento de desejar que sua vida não estivesse mais sob seu pobre controle. Desejou aprender a ser mais tolerante com o que não sai como o planejado e a ter mais inteligência e equilíbrio para acolher que de tudo se tira um bem, se a postura interior é sustentada por quem realmente domina todas as coisas. Se essa certeza interior transbordar para as atitudes, as tolas frustrações não serão sentidas nas relações com o outro. 

Que livre é quem não domina, não controla e saber viver bem assim!   

No final das contas, até que o bolo estava bom! Queimou um pouco por fora, mas o sabor e a textura estavam muito agradáveis. Considerou que aquele erro mais ajudou do que atrapalhou, afinal quem diria que algo tão ordinário revelaria algo tão extraordinário dentro de si! Louvou a graça de ter uma vida regida por providências e de ver nas pequenas coisas, enormes oportunidades para aprender sobre si e, tendo aprendido, progredir.  

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A melhor época do ano

É comum perguntarem a ela porque tanta empolgação nessa época do ano. Uma pergunta comum que não tem respostas tão comuns assim, pois sempre que questionada, parece que algo se contorce dentro de si querendo responder de uma forma que nunca consegue.

Aquele ano apresentava-se diferente dos outros, mas pensava que não era de se espantar, afinal essa época é a mais criativa, empolgante de todas. No entanto, havia algo realmente novo, e era importante. Era a primeira vez que vivia esse período naquela casa, com aquelas pessoas, naquele trabalho, aí começou a traçar a evidência de que era natural estar diferente. Porém a maior diferença era dentro, no como estava se sentindo, no como estava vivendo e no como gostaria de viver.

Não queria falar de interior agora, é muito complicado... Exteriormente os enfeites lindos começaram a aparecer cedo, dois meses antes! Acabou ganhando uma velha brincadeira com o irmão de ver quem é o primeiro a apontar os enfeites a cada ano. Fazia tempo que não ganhava, começou por aí o diferente. O irmão reclamou do quão adiantados estavam os enfeites, mas aceitou a derrota, pronto para ganhar no próximo ano.

Mas os enfeites “precoces” geralmente não retratavam o sentido que ela, que sua fé, atribuía àquela época. Tudo tinha muito mais sentido do que o comércio explorava, é triste! Os enfeites que realmente carregam a carga de sentido que procurava viver, esses tinham datas bem definidas para começar a embelezar o mundo. Ela acolhia, mas lamentava dentro de si o fato dos enfeites sem sentido terem muito mais tempo de visibilidade do que aqueles que realmente importavam. Assim era, e assim sempre seria, e era lindo assim.

Foto: Unsplash
Mesmo que tentasse fugir, uma hora não dava mais, tinha que admitir e tentar entender o que estava tão diferente dentro de si. Sim, muitas mudanças na vida, mas era mais que isso. Percebeu que era a primeira vez que vivia sua época preferida do ano com uma nova postura interior. Havia abraçado uma realidade desafiante que pretendia viver para sempre. Estava em um caminho de decisões sérias, de assumir promessas. A partir dessa conclusão começou a perceber que sua alegria por celebrar aquela data não poderia mais ser por simples gosto, tradição ou euforia, seu compromisso de amor com àqueles festejos pediam um testemunho mais maduro e encarnado. Era isso? Por essa razão a pergunta “Por que você gosta tanto do Natal?” começara a tomar uma sombra de incômodo.
E a verdade é que começou a perguntar-se várias vezes a mesma coisa, e mais do que questionamentos alheios, os seus próprios estavam mais incisivos e frequentes: Por que eu gosto tanto do Natal?

Viveu sua época preferida a questionar-se, sem deixar que olhos admirados de quem via sua alegria efusiva penetrassem sua confusão interior. Acreditava que tudo na vida era regido por uma Providência que é Divina, e a providência quis que nesse ano, ela experimentasse de situações e sentimentos bem desagradáveis, e em cada um deles ela se via impulsionada a cantar a vitória, porque afinal, era Natal, não iria se entregar a derrota ou tristeza no Natal. Mas a providência insistiu em provar se aquela alegria era autêntica ou uma alegria infantil. Por vezes fraquejou, por vezes ficou decepcionada consigo, mas a Providência tem outros nomes, um deles é Misericórdia, e assim sempre resgatava o sorriso, a expectativa feliz e a empolgação. Estava chegando o Natal!

Ele chegou! Ela viveu e não foi como de costume mesmo. Até o fim teve que escolher viver a graça do tempo que tanto amava. Desejou que fosse mais fácil, mas entendeu que era como deveria ser para que aprendesse.

Durante toda essa jornada natalina foram muitas canções, sorrisos, leituras, meditações, partilhas, momentos, luzes, lindos enfeites, que encheram seus olhos e seu coração de um desejo de sentido muito grande. Até que resolveu, depois de muito conversar com o dono do Natal, tentar mesmo responder porque o amava tanto, porque era sua época preferida.

“Creio que deve ser por causa da atmosfera de beleza sem igual que encontro nessa época. Tudo me remete ao conforto do carinho de braços puros, tudo me remete à luz que não apaga e não encontra brilho que a ela se equipare.

Imagino ser por uma alegria terna, daquelas que sentimos quando estamos em família. De um lugar aconchegante, seguro, onde reina a paz daqueles que só querem desfrutar da presença uns dos outros, que encontraram felicidade em partilhar a simplicidade do amor.

Ainda penso que tem relação com as melodias entoadas, as canções tradicionais, os ritmos que embalam a época que parece cantar por si mesma, que parece ter uma viva trilha sonora a embalar os momentos tão sublimes que envolveram o evento naquela noite em que tudo mudou.  Talvez naquela noite, os homens tenham se aproveitado do contentamento dos anjos, e conseguido por alguns momentos ouvir seus arranjos e acordes, copiando a divina canção que atravessou tempos e terras para chegar aqui e agora.

Não sei, mas o clima é diferente. É misterioso e ao mesmo tempo certo. É intrigante e  ao mesmo tempo pacificador. É um Natal, um nascimento, mas um nascimento envolvido num amor tão grande que faltam as palavras para comentar. É natural que o início de uma vida seja celebrado, seja bem vindo, seja esperado, seja alegre... Mas o Natal é a vida da Vida, é um absurdo de compaixão por mim. É a minha salvação que nasceu. A minha esperança que nasceu.
O Natal é olhar para o Deus onipotente, criador, ali, feito um bebê, pronto para se colocar em minhas mãos. É o cúmulo do abandono e da confiança, deixar todo o seu poder para ter uma natureza como a minha e se submeter ao risco da minha ruindade. É uma lição sobre o que realmente importa: a simplicidade; o esforço de fazer com que o outro prove de algo belo e cheio de amor; o cuidado de uma mãe e de um pai; o silêncio fecundo de quem fala com Deus; o pouco que se torna tudo no mistério da prodigalidade divina; a felicidade de confiar mesmo sem conhecer o futuro, porque a Providência, aquela que desde o princípio orienta a vida, cuida de tudo”!

Por isso e muito mais do que pode descrever, ela ama o Natal, porque ele é lindo, ele é feliz, ele é santo e é cheio de um mistério, de um amor que não se esgota. Por isso é vão explicá-lo, melhor é vive-lo.

O Natal é Ele, é Jesus e Ele quis ser meu.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Uma Jornada de Sol

Era tudo especial! Aquela viagem era uma sucessão de emoções, lugares, sentimentos, ensinamentos que se superavam e completavam. Mas como toda viagem, tinha data para acabar, e era quase nesse ponto que se encontravam.

Havia neles o desejo de tornar tudo memorável, mas sabiam que pelo curso que tudo tomava, isso não era difícil, não exigia tanto esforço... Naquela tarde, andar pelas ruas, cantando e deixando que a vida tivesse trilha sonora parecia combinar com tudo ao redor e certamente preenchia uma parte do coração que ansiava por emoção, por aquele sentimento que não se traduz em palavras, mas existe da sede de sentir-se próximo, sentir-se parte de uma sensação compartilhada. 


Essas sensações envolviam também uma imaginação divertida, que criava histórias para os pontos daquela cidade que nenhum guia turístico poderia superar, verdadeiros ou não, os fatos imaginados eram tudo o que precisavam naquele momento.


Chegando ao monumento que era o destino final... fotos, caminhadas, risos, conversas. Tudo era leve, fácil. O clima era muito agradável, fresco. Até a chuva fina foi bem vinda, o que estava fora refletia a dinâmica do que estava dentro. Mas o objetivo mesmo era registrar o fim de tarde e as luzes da noite daquele lugar. Esperar até que as luzes se acendessem não era uma espera interminável, afinal, a relatividade do tempo é bem ativa quando vivemos momentos agradáveis, tudo parece voar.

Luzes acesas, noite estabelecida, objetivo atingido, e então nasce uma outra ideia: jantar com vista para aquele ponto. A sugestão soava bem, e foi aceita por todos. Então começa a procura pelo lugar perfeito. Logo percebia-se que só um deles tinha certo critério na escolha do lugar, os outros pareciam aceitar tudo... Porque estavam tão envolvidos no momento que nada poderia estraga-lo, ou por simples ausência de exigências. A pessoa com critério assumiu a missão da escolha, passaram por alguns lugares, nada parecia preencher os requisitos desconhecidos, mas bem impostos. Quase  na esquina, onde parecia que o monumento que queriam observar já não seria tão visível, lá estava o restaurante.

Convencidos pela simpatia de uma hostess e talvez pelo fato que estavam acabando as opções, encontraram o lugar. Nem se aventuraram a olha-lo por dentro, afinal a meta era ter aquelas luzes e aquele monumento de pano de fundo. Sentaram-se em uma mesa na calçada. Um deles ficou de costas para a desejada vista, mas parecia não ligar. Acomodados, satisfeitos com a escolha, decidiram o que comer e beber. Foi quando os ânimos acalmaram, quando pararam, que perceberam o movimento que os cercava o dia todo, mas até então não os tinha alcançado. 

A saudade do que estava acabando, o receio do final e do novo início reinou. Esse cenário atingiu uns mais profundamente do que outros, mas como nos atos anteriores daquela peça compartilhada, todos embarcaram na sensação. Ela não era tão boa quanto as outras, tinha uma certa melancolia, um certo silêncio imponente, que transbordava em olhares perdidos e longos suspiros. Mas estava tudo bem! Não estava?

Foi quando a providência que os regia adicionou aquela surpresa oportuna. Quando menos esperavam ouviu-se o som da voz forte e agradável de uma cantora. Ela cantava músicas típicas daquele lugar, assim concluíram que viviam mais uma experiência para ser contada, e algo que quase todo mundo que ia ali buscava. Que feliz surpresa! Não era mais necessário criar uma trilha sonora para o momento, porque ela estava ali, perfeitamente atrelada ao local.

Porém, nem a música foi capaz de afastar a sombra que havia pairado entre eles, trazendo a notícia do quase final. O clima era leve, mas tinha perdido a leveza divertida que foi substituída por uma mais reflexiva. Poderia-se dizer que essa atmosfera apesar de melancólica, selava uma certa cumplicidade e intimidade construídas naqueles dias. Nesse clima não eram mais simples parceiros de viagem, ali partilhavam mais, partilhavam o que estava dentro, que era inexprimível, mas pela graça do momento, era totalmente subentendido por todos.

Ao som de "O Sole Mio" e "Funiculí, Funiculá" tentavam controlar a melancolia e viver aquela última noite juntos. Comentários aleatórios, planejamento do próximo dia, elogios ao lugar, a comida, a música, e a pessoa que não os deixou parar nas primeiras opções de restaurantes; ajudavam nessa missão.

Um foi olhar dentro do restaurante, e viu o quanto era bonito, e sugeriu que todos conferissem. E assim aconteceu, em rodízio foram olhar o local escondido. E enquanto aconteciam essas saídas e chegadas na mesa, o assunto escondido começava a emergir. Diante das partilhas e das luzes lançadas no mistério trazido nos corações começaram a falar do retorno. Para que tentar dissimular o que já estava óbvio?

Nas palavras ditas, e nas não ditas estavam expressos os anseios de corações que desejavam não viver sem sentido. Todos os desafios e as possibilidades desenhadas na vida para a qual voltavam queriam, na verdade, ser abraçados, encarnados. A experiência que os havia colocado naquele estilo de vida, dentro daquelas escolhas era extremamente exigente, mas completamente cheia de verdade, essa escolha os unia em um mesmo caminho, trilhado em lugares diferentes, de maneiras diferentes, mas que os levaria no final para uma mesma eternidade. Essa trajetória os deixava a vontade uns com os outros, gerava esse sentimento confortável de reciprocidade.

A voz da cantora cessou, o jantar acabou e eles saíram dali, carregando muitas coisas para refletir. No caminho para casa, mais sensações, filosofia de metrô, danças nos corredores, fotos cheias de sentido... Coisas de quem sabe viver, e sabe viver junto.

Nisso tudo ficam o pensamento, a sensação, a memória, e as palavras. Como é especial quando vivemos momentos que são registrados em nós como uma herança que não passa. Isso parece nos tornar mais humanos, mais próximos, mais vivos. A fé que une as pessoas que a comungam tem um poder singular de tornar especial o que é vivido por ela, pela fé e na fé. Partilhar momentos com quem entende a profundidade, simplicidade e importância deles gera essa calma feliz de quem pode relaxar e ser acolhido. Que bela coisa é essa jornada na qual a divina providência nos insere, é como aquela a trilha sonora cantava:

Que bela coisa uma jornada de sol
Um ar sereno depois da tempestade
Pelo ar fresco parece já uma festa
Que bela coisa uma jornada de sol
Mas um outro sol mais belo, ainda assim, o meu sol, está na sua fronte
O sol, o meu sol, está na sua fronte, está na sua fronte
Quando desce a noite e o sol deita-se
Me pega quase uma melancolia
Ficaria embaixo da sua janela
Quando desce a noite e o sol deita-se
Mas um outro sol mais belo, ainda assim, o meu sol, está na sua fronte
O sol, o meu sol, está na sua fronte, está na sua fronte
(Tradução de "O Sole Mio")

Em busca do sol que brilha onipotente e brilha na fronte do próximo a vida continua, como essa bela jornada de sensações, crescimento, morte e ressurreição. Uma jornada que pode ser partilhada com aqueles que encontramos no caminho e que estão caminhando na mesma direção. Jornada de finais, começos, desafios, surpresas agradáveis, mimos, e todo tipo de coisa. Jornada em que encontramos pessoas que caminham para lados opostos, e nelas descobrimos a alegria de anunciar a verdadeira direção. Jornada onde O Sol nunca falta! Afinal, Ele pode se pôr, mas nunca se apaga; e mesmo quando se põe, pode ser visto na fronte daqueles que caminham ao seu lado.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Que seja Ela Exaltada

Ergue Tua Cruz Jesus! Deixa que Ela fique lá no alto, onde todos podem ver, onde todos podem se questionar, sobre Ela e sobre Ti, sobre si mesmos, e sobre tudo.

Ergue Tua Cruz Jesus, porque dissestes que quando fosses elevado atrairia todos a Ti, e dessa atração somos necessitados, deste sinal que nos arrasta somos dependentes.

Ergue Tua Cruz Jesus, porque Nela está a contradição que traz a mais perfeita harmonia à vida humana. Nela está a loucura extrema que traz a completa serenidade e paz a todo aquele que crê.

Ergue Tua Cruz Jesus, e mostra que a dinâmica da vida é contrária ao esconder-se, ao poupar-se, ao proteger-se. Mostra a liberdade e a libertação contidas Nela, contidas no Teu corpo unido a Ela.

Ergue Tua Cruz Jesus, e seja mais uma vez sinal de novo tempo, sinal de princípio, sinal de eternidade, nesse rompimento com limites e contingências do que calculamos como ontem, hoje e amanhã.

Ergue Tua Cruz Jesus, e com Ela eleva nosso olhar. Que não fiquemos mais presos ao que vemos e sentimos, nessa vida aparente e sedutora, que quer manter nossos olhos naquilo que acaba e logo é substituído por algo supostamente mais interessante. Com nosso olhar fixo Nela, sejamos livres do erro e do engano.


Ergue Tua Cruz Jesus e com Ela eleva nosso coração. Que os cravos que Te prenderam a Ela, penetrem também em nós, nos ferindo e nos unindo, ao caminho que, por alto preço, conquistaste pra cada um. Caminho reto, caminho certo, caminho real.

Ergue Tua Cruz Jesus, e transcende toda a mesquinhez da nossa mentalidade. Transcende nossa compreensão de felicidade. Transcende nossa visão estreita e nosso medo de dar.

Ergue Tua Cruz Jesus, e Nela abre os braços para convidar toda a humanidade a Te experimentar. Que Teus braços abertos acolham. Que Teus braços abertos deem novo sabor e novo sentido a cada realidade que se deixa alcançar.

Ergue Tua Cruz Jesus, e sede exaltado. Por Ela nos ensina a viver, por Ela nos ensina a sofrer, por Ela nos ensina a morrer, por Ela nos ensina a ressuscitar.

Ergue Tua Cruz Jesus, e sede exaltado. Seja Ela um memorial de um Cristo vivo, cujo caminho conferiu verdadeira vida à nossa existência. Seja Ela um memorial que se renova a cada dia, que é visitado a cada dia, porque quem A toca sempre experimenta a novidade e o mistério inexprimíveis.

Seja exaltado em Tua Santa Cruz Jesus. Porque Ela é sinal do Teu amor que não poupou nada, amor que nos ensina a amar, entrega que nos ensina a entregar, vida que nos ensina a viver. Que diante Dela nosso joelho se dobre e nossa língua confesse que és o único Senhor. Que Ela permaneça Exaltada, para que compreendamos que absolutamente tudo não A pode superar. 


sexta-feira, 27 de março de 2015

1 espectadora satisfeita, 2 diretores criativos, 3 + lados de uma história

Faz tempo que não escrevo sobre filmes! Não sei exatamente porque, afinal, tenho assistido muitos, como de costume rs. Mas acho que o que faltava era exatamente o que encontrei nessas duas produções das quais resolvi falar. Bem, como sempre pensei e continuo pensando, filmes representam um gosto muito pessoal, que pode despertar impressões e relações diversas naqueles que assistem. As qualidades que encontrei em "Boyhood" e "The disappearance of Eleanor Rigby" eu descrevo a seguir, já me desculpando se por acaso você assistiu ou assistir um deles, e discordar totalmente do que irei escrever... rs
Para contextualizar devo dizer que eu amo cinema! Adoro tipos e gêneros variados de filmes. Gosto muito dos filmes blockbusters, gosto dos filminhos clichês, das trilogias épicas, dos heróis, das realidades futurísticas e dos que retratam a sociedade... Mas eu amo mesmo os filmes que conseguem tocar sentimentos e questionamentos do ser humano. Aqueles filmes que não tem reviravoltas espetaculares, que não tem explosões e perseguições que tiram o fôlego, mas que vão fundo naquilo que é real para todos: vida, duvidas e busca. Aqueles filmes com diálogos longos, sensíveis, simples ou complexos. E esses dois me ganharam nessa categoria! Devo dizer que quando assisto filmes assim, fico sorrindo por dentro diante da confirmação que realmente as pessoas não estão estéreis como a tendência negativa das massas querem nos convencer. Quando assisto filmes assim, me convenço que a beleza do ser humano de refletir sobre as pequenas coisas, ou as grandes crises, existe e pode ser retratada no cinema! Existe criatividade, sede, complexidade e esperança. Como pode-se ver, nessa parte dessa postagem você leu o testemunho de uma espectadora satisfeita, bem satisfeita rs. Agora vamos ao que interessa, os filmes e seus respectivos diretores criativos.

The Disappearance of Eleanor Rigby | 2013/2014 | Ned Benson
Dois lados do amor (no Brasil) | Tradução bem pobre do título, na minha humilde opinião

O filme escrito e dirigido por Ned Benson tem como protagonistas o casal Eleanor (Jessica Chastain) e Connor (James McAvoy). Esse jovem casal novaiorquino está tendo dificuldades em seu casamento por causa de um acontecimento trágico que desequilibrou emocionalmente e psicologicamente os dois. Não vou dizer aqui o que aconteceu, mesmo porque nem assistindo o filme você verá diálogos explícitos sobre o que realmente aconteceu... Essa é uma das belezas do filme. Algo aconteceu! Mas o foco não é o fato, o foco é como os personagens lidam ou evitam lidar com os resultados dele.
Eu estou falando aqui de 'um filme', mas na verdade, são 'três filmes'! Isso mesmo, três! Aí entra a criatividade de Ned Benson, um cara que eu nem conhecia e que em rápida pesquisa online, descobri que esse foi o seu primeiro projeto de longa metragem! Devo dizer, parabéns pela estréia Ned! Acontece que esse diretor teve a ideia de transformar seu 'um filme' em 'três', explorando a ideia que em relacionamentos, especialmente os amorosos, existem sempre perspectivas diferentes sobre uma mesma história. Benson lançou então, o mesmo filme em três versões: Him (Ele), Her (Ela), Them (Eles). A construção das diferentes versões é bonita por respeitar esse olhar pessoal dos personagens e porque, mesmo as cenas que convergem, são mostradas em ângulos diferentes. A versão 'Eles' é a comercial, nela obviamente, está a combinação das outras duas versões. Na minha opinião a versão comercial é a menos interessante. As versões 'Ele' e 'Ela' tem cenas extras, que dão mais sentido à trama e procuram permanecer fiéis à personalidade e sentimento do personagem explorado. 
Para levar quem está assistindo à um mergulho no sentimento humano, o filme conta com cenas bonitas, de poucas palavras e gestos muito significativos; com cenas em flashback mostrando como Eleanor e Connor foram ou são apaixonados; com cenas com diálogos filosóficos; com cenas de conversas onde as palavras tentam explicar, descobrir e aliviar os sentimentos de duvida e desespero. O filme fala de amor, de dor, de superação, de fuga. Fala de tentar, de falhar, de desistir, de recomeçar. Em resumo, o filme, ou os filmes, tentam captar esses momentos da vida que nos fazem tomar decisões nada fáceis. Adorei a interpretação de Jessica Chastain e James McAvoy, os outros atores não são muito conhecidos, e assim como a escolha do elenco, a trilha sonora também segue uma linha meio 'alternativa'. 
The disappearance of Eleanor Rigby é bonito, simples e sensível.

Boyhood | 2014
Boyhood - Da infância a juventude (no Brasil)


Filme escrito e dirigido por Richard Linklater. A história de Boyhood narra a vida de Mason (Ellar Coltrane) e sua família. E você poderia pensar, e daí? O ponto é que a produção levou 12 anos para ser concluída, isso porque o criativo Linklater, quis usar os mesmos atores e mostrar da maneira mais realista possível, o crescimento e a evolução dos personagens e de suas histórias. O enredo não traz nada de muito fantástico, estamos assistindo a vida de um menino, que tem pais divorciados, que aprende, vive, sonha e cresce. O filme Boyhood transforma uma vida simples em uma aventura interessante e intrigante. 

Um dos aspectos que mais gostei do filme foi o cuidado com a fidelidade com os acontecimentos contemporâneos. Vemos referências da situação política do país, a evolução dos vídeo games rs, as músicas populares de cada momento, os livros populares de cada momento. Há referências de cultura popular que passa por Bitney Spears, XBox, Harry Potter, tecnologia kinect, Saga Crepúsculo, Lady Gaga, Facebook... E mais, eles mencionam Star Wars pelo menos duas vezes =) ... Ponto para eles!!! 
Mason, o protagonista, não é um menino excepcional. Ele tem sonhos e talentos, mas não é um gênio! O aspecto de Mason que eu mais gosto, é sua sensibilidade e sua busca por descobrir quem ele é e o que quer fazer com sua vida... Acho que tendo o pai que ele tem, interpretado pelo ótimo Ethan Hawke, fica meio que fácil crescer com um espírito reflexivo rs. A parceria do diretor Linklater e do ator Hawke já é atinga... Sempre seguindo essa linha de filmes reflexivos (Before Sunrise 1995, Before Sunset 2004, Before Midnight 2013, que também adoro). Seria injusto não mencionar também a mãe de Mason, interpretada por Patricia Arquette, que ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante por esse trabalho... Falando em Oscar, ainda não acredito que Richard Linklater não ganhou o de melhor diretor!!! A produção foi indicada à 5 Oscars, inclusive melhor filme.
Boyhood é de uma sensibilidade muito bonita! A maneira que o jovem Mason gosta de fotografia, de captar 'o momento', do como ele observa os acertos e erros dos pais e mesmo assim consegue construir uma personalidade própria, o significado dos presentes que ele ganha, do como ele se expõe à diferentes realidades e oportunidades na infância e adolescência... É impossível não se identificar com pelo menos um aspecto! Além de tudo isso, adorei a trilha sonora. Boyhood é original, íntimo, belo, e profundo de uma maneira sútil e simples.

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Agora que já cobrimos os pontos 1, 2 e 3 do título dessa postagem, é hora do " + "... As curiosas semelhanças!

+ Os dois filmes tem pouca ação e muito diálogo;
++ Os dois filmes não têm aquela conclusão fechada e direta;
+++ Os dois não entram na categoria 'filme típico', em nenhum sentido.
++++ Os dois fazem explícita referência aos Beatles! Eleanor Rigby é o nome de uma canção da banda. Em Boyhood, Mason ganha no seu aniversário de 15 anos, um CD dos Beatles de seu pai, o fato especial é que seu pai organizou e selecionou as faixas em uma ordem e lógica singulares. Ambas referências são tratadas nos filmes;
+++++ Como escrevi acima, ambas produções tiveram um diretor que também escreveu o roteiro.
++++++ Ambos posters oficiais mostram pessoas deitadas na grama hahaha



E devem ter mais semelhanças, que minha limitada capacidade de relações deve ter deixado passar... Eis aí mais uma beleza comum aos dois, sei que se assistir novamente, irei descobrir algo novo ;) 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Uma ideia, uma música, um café, um futuro

Olhava na tela o arquivo ainda em branco. Retorcia-se na cadeira tentando parecer bem-sucedido, não sabia para quem ou para quê, talvez para si mesmo. Não entendia porque estava tão travado... não era isso que queria? 

Era jovem, havia iniciado sua faculdade. O trabalho que o travava naquele momento era o primeiro que iria fazer. Precisava discorrer sobre 'perspectivas de qualidade vida e futuro de sucesso no mundo de hoje tendo em vista algumas correntes filosóficas que estava estudando'. Com leve desapontamento lembra-se que havia se gabado em sala com quem estava em volta, não lembrava quem... O fato é que havia se gabado dizendo que o trabalho era ridículo, que esperava mais da esfera acadêmica...

Pegou seu computador, foi àquele café que gosta de ir, colocou fones de ouvido, e ouvia Chopin tocando piano. Gostava daquele piano, suave e meio triste... Triste não era bem a palavra, não sabia definir, mas sentia que aquilo combinava com o momento. Assim como, o copo de café, a mesa daquele lugar com tons escuros, luminárias bonitas, sofás e pessoas pareciam combinar... Combinar com seu arquivo em branco?

Frustração! Era isso que sentia agora. De repente começou a se questionar se havia escolhido o curso certo, se havia escolhido a cidade certa. Só o que fica muito claro antes de sua decisão era a vontade de sair de casa. Foi precipitado? - Não! Balançou a cabeça desaprovando e afastando de si aquele pensamento. Enfim, era essa sua realidade agora e tinha que lidar com ela. E verdadeiramente o novo, o desafio, a independência, o incerto eram bem estimulantes. Havia um mundo de possibilidades. Estava em uma boa universidade, ali havia possibilidades de pesquisa científica, estágios, intercâmbios e mais... Mas se não conseguia escrever uma porcaria de trabalho introdutório como poderia sonhar em conseguir algo assim? 

Desafiando o arquivo em branco estala os dedos e escreve: "São numerosas as possibilidades de...". De o que? Parou, e o pensamento foi longe. Possibilidades, como as que analisava dia e noite antes de vir parar nesse curso e nessa cidade. Nunca entendeu porque as pessoas eram empurradas tão cedo a esse tipo de decisão. Estava preparado? Com o rosto subitamente empalidecido lembra-se do grande desconforto de seus pais a respeito de sua decisão. Lembra-se das inúmeras orientações e súplicas de sua mãe para que "não esquecesse quem ele era". Quem eu sou! Hum, um pensamento útil se falamos de filosofia, o mais clichê de todos. Mas ainda nenhuma ideia... 

Preso ainda no pensamento sobre os sermões de seus pais, pensa como seria divertido se eles soubessem o que dizem esses filósofos sobre os valores que eles sempre defenderam... Seria divertido ver o choque no rosto deles! Ahh nem tanto, seus pais eram pessoas esclarecidas, já sabiam dessas opiniões e nunca se viram desmoralizados por elas... Talvez fosse isso que o estivesse travando, as teorias em que deveria de basear eram contrárias ao que havia vivenciado até então. Será? Talvez fosse apenas um conflito de ideais. Absurdo! Não poderia deixar que isso fosse estritamente sobre sua experiência pessoal, tinha que ser mais... flexível?

Revisando alguns pontos daquelas teorias em que deveria se basear reafirmou o quanto discordava de tudo aquilo. É claro que haviam pontos obscuros, abertos para discussão, mas em uma visão ampla: discordância. O piano de Chopin estava especialmente lindo e melancólico agora... Gostaria de ter aprendido a tocar piano! Hum talvez ainda aprendesse... A verdade é que tinha essa ideia fixa que era muito velho para começar a aprender. Mas tinha outras metas em mente, muitas, muitos sonhos e planos. Sorriu... Seu sorriso era melancólico como a música que ouvia. Será que conseguiria fazer tudo aquilo que sonhava? Era realmente algo para se questionar, principalmente se considerasse que alguns de seus planos eram totalmente contraditórios à outros... Depois de alguns instantes de pensamento vago, percebeu que Chopin não estava mais tão melancólico, e ele decidiu não estar também! 

Qualidade de vida e futuro! Qualidade de vida e futuro? O que tinha a dizer sobre isso? E mais, o que tinha a dizer sobre isso à luz desses filósofos? A verdade é que eles não conferiam nenhuma luz. Não colaboravam muito com sua linha de raciocínio... Sorriu pensando que sua mãe diria: "Bravo"! Desde que havia chegado ali via tantas coisas que o faziam questionar os valores que tem, ou tinha, ou que tem ainda... É claro que não saía por aí comentando sobre suas opiniões, afinal, as pessoas são livres para fazer o que querem, não é? Mas algumas atitudes o afetavam mais do que gostaria. Em sua cabeça parecia tão simples que as pessoas não deveriam fazer coisas estúpidas que levam à desvalorização de si mesmas e à sucessão de eventos sem sentido. Opa, seus pais ficariam felizes de novo...

O fato é que se sentia profundamente privilegiado por ter crescido em um ambiente que lhe mostrava valores, que inspirava sonhos e metas, que tinha regras, bem irritantes às vezes, mas que o ajudaram a refletir e entender muitas coisas. Entendia que isso não era muito comum hoje em dia. Tudo é moderno e permitido. Nunca foi um perfeito obediente de regras, sempre questionou e lutou, mas sempre encontrou espaço para ouvir e ser ouvido. Achava que todos mereciam essa chance... mas afinal, o que tinha ele a ver com todos? Nada! Nada?

Mas não podia negar que era meio triste. Estava tão ansioso pela faculdade, pela vida adulta, e a maioria do que via lhe parecia perda de tempo. De repente ouvia em sua cabeça, as vozes dos dois caras com quem estava dividindo o apartamento: "Relaxa"! De certa forma compreendia que sua atitude e negação à certas coisas incomodava os outros. Não queria incomodar, queria ser 'cool', mas não queria deixar de ser quem era. Isso era tão irritante.

Festas e porres, relações casuais e total despreocupação com quase tudo, a não ser aparências. Nada disso o seduzia muito. É claro que algumas facilidades que já existiam antes e que se tornaram mais fáceis ainda eram bem interessantes... Sorriu, um sorriso malicioso. Parou. Não era isso que queria. O que queria então? Qualidade de vida e futuro de sucesso? Riu novamente. O problema é que as tendências que via ao seu redor e as ideias apresentadas por aqueles caras que ele tinha que estudar não estavam em consonância com o que imaginava ser bom... Chopin estava em consonância com o que estava sentindo agora - ele riu. Hum e aquele café também! Que havia acabado por sinal. Levantou-se e comprou outro. A moça que o atendeu tinha um sorriso bonito, ele a via ali regularmente, e gostava quando ela o atendia. 

De volta ao arquivo em branco! Totalmente em branco porque já havia apagado as poucas palavras que escreveu. Sentiu falta de casa, das promessas de futuro luminoso, do bom e do belo de que ouvia falar e experimentava em sua pequena cidade, nos círculos que frequentava. Estava tão longe de lá agora! Estava longe das pessoas queridas, dos aromas familiares, das conversas sobre o desconhecido. É certo que ele vivia o tal desconhecido agora, e não lhe parecia tão maravilhoso como imaginava. É claro que já conhecia todas essas realidades, esses conceitos que agora estuda, essas tendências que testemunha e que estiveram sempre ao seu redor. E quando não estavam ao seu redor estavam estampadas em capas de revistas, em jornais e programas, em modas e estilos musicais. Afinal de contas, não era nenhum alienado! Nada disso que o incomodava era surpresa, e então, por que o incomodava mais agora?

Talvez porque agora se sentia mais pressionado a se deixar levar pela maré que o circundava. Ahhh... Que irritação! Ainda bem que o café tinha um efeito de consolação impressionante. Pensou em seus sonhos, nas razões que o levaram até ali e nas teorias em que deveria se basear para escrever. Ninguém disse que ele não poderia discordar daqueles filósofos! Aliás, somente esse pesamento já o encheu de esperanças. Mas ainda não queria que seu texto fosse muito pessoal, não queria que fosse simplesmente algo sobre si... Refletindo um pouco, levantou as sobrancelhas e torceu a boca, e concluiu que não era definitivamente somente sobre si! Percebeu que o que pensava e acreditava eram realmente propostas para todos, especialmente para aqueles que estavam em seu convívio ultimamente. Ele acreditava naquilo! Acreditava em sua eficiência! Acreditava no luminoso, no bom, no belo. Sorriu...

Tomou mais um gole de seu café, percebeu que Chopin tocava mais animadamente seu piano, esticou os braços para frente, e com brilho no olhar e dedos rápidos, começou a escrever.   

terça-feira, 3 de março de 2015

Sobre o que não deve ser exclusivo

Starry Night | Vincent Van Gogh | 1889

Nascia de uma dor estranha, de uma vontade de gritar. Mas, calma, não era nada negativo. Pelo menos achava que não. Pensava e sentia tanta coisa ao mesmo tempo, e o maior desejo era, que no meio daquela turbulência, encontrasse sentido e paz.


Ultimamente andava pensando muito no como nossas atitudes afetam e causam respostas do outro e do mundo. Pensava: "Como têm ainda coragem de não acreditar em mudança, se eu a vejo tanto e com tanta frequência"? Não era possível que isso fosse uma graça exclusiva! Não mesmo!

Pensava na beleza do emocionar-se e de emocionar-se com a beleza. A beleza que chega até a constranger... Beleza do puro, beleza do som, beleza do outro, beleza dos sentimentos, beleza das palavras, beleza das atitudes, beleza das lutas nobres, beleza da superação, beleza do simples, beleza do que inspira! Quanta beleza! Não enxergam e não percebem? Não pode ser graça exclusiva! Não mesmo! 

A dor estranha era como de algo que queria ir ao encontro. Ao encontro do que? Ao encontro de quem? Era uma certeza que queria explodir, que queria transbordar, que queria ter voz, que não cabia onde estava. Aquilo precisava fluir e dar vazão à todo o conteúdo que tinha, à toda a potência que vinha de algum outro lugar. Sabia que vinha de outro lugar, aceitava que não lhe pertencia. E que certamente não era graça exclusiva! Não mesmo!

Era algo que fazia vislumbrar em si uma pequenez imensa, com o perdão do paradoxo. Nunca tinha sido tão linda tamanha insignificância. Era um reconhecimento sobre si que tornava tudo até engraçado, que gerava uma liberdade extasiante. Nada! Pequenez e insignificância benditas! Será que era graça exclusiva? Não mesmo!

Perdia-se nas possibilidades. Um suave e profundo mergulho em si. Possibilidades para agora, para amanhã, para sempre. Meio avessa à insignificância era essa certeza da possibilidade; isso se explicava totalmente pela aceitação, de que era a dor estranha que dava força à tudo. Era ela que movia, que fazia enxergar o possível, o belo, o simples, o novo, o desafio, o tudo, o nada, o outro, todos. Tomara que não seja graça exclusiva! Não mesmo!

Isso fazia suspirar, dava uma sede, dava uma vontade de sorrir, de chorar, de ir à todos os lugares, de ficar onde mais amava, de ver mais mudança, de ver mais beleza, de se emocionar de novo, de aprender, de deixar que a dor estranha crescesse e fizesse o que bem entendesse. Restava o pensamento de que aquilo jamais deveria ser uma graça exclusiva! E isso gerava um compromisso de dividir... E como se divide uma dor estranha? Talvez da mesma forma que adquiriu-a? Pensava: "Mas eles têm medo da dor! Esse medo que os tornou fracos, cegos e prisioneiros. Quisera soubessem que a dor é só parte do processo, quisera ajudá-los a deixar que a dor estranha os tomasse, mudasse, fortalecesse, fizesse enxergar e libertasse". Compreendia o medo, porque também sentia. Compreendia a fraqueza, a cegueira e a prisão, porque tudo isso lhe era muito familiar. Porém a dor estranha superava tudo! O que fazer? 

Sabia, com certeza, que isso tudo não deve ser exclusivo! Não mesmo!


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Minha Amiga


Faz tempo que eu disse para Maria que queria escrever sobre ela. Não que ela tenha pedido, porque ela é humilde demais para isso, e não que ela precise, porque afinal, seu testemunho já diz ao mundo tudo que ele precisa saber ao seu respeito... Por que então?

Simplesmente porque eu preciso falar dela. Preciso falar da amizade que me edifica em Deus. Preciso falar da presença, da devoção, do auxílio, que a cada dia se torna mais essencial e especial na minha vida.

Não pretendo aqui levantar evidências sobre os dogmas Marianos, debater ideias ou qualquer outra coisa do tipo. Só quero falar da minha mãe, da minha amiga! A devoção Mariana inspirada, obviamente pela minha fé católica, vem crescendo e amadurecendo em mim, assim como eu mesma e minha fé estão em processo de amadurecimento. Não vejo para mim caminho de contemplação, de busca da Vontade de Deus que não passe pelas mãos, pelo ventre, pelo testemunho de Maria.

Maria, a minha amiga, para mim é um exemplo sólido e lindo de como ser mulher. Suas virtudes, suas escolhas, sua postura deveriam ser sempre encarados por nós mulheres, como receita de como viver dignamente, de como se comportar, de como servir e testemunhar Deus. Hoje em dia as mulheres têm se desfigurado tanto por tendências, ideias, conceitos... Elas têm se desvalorizado tanto por carências, necessidade de auto-afirmação... É tão triste! E eu olho para Maria e vejo que ela, sim, deveria ser parâmetro, e não tantas coisas que tem sido consideradas características próprias de uma mulher... Mas só essa história já daria outra longa postagem...

Enfim, gostaria de refletir um pouco sobre a presença de Maria nos Evangelhos. Se lermos a Sagrada Escritura, vemos que Maria não aparece muito, e quando aparece, não fica falando muito. Eu acredito que isso se explica pelo fato dela ter entendido plenamente que a sua missão, em momento nenhum, era ser o centro de tudo que estava acontecendo. Ela compreendeu que para ser de Deus, para responder ao seu chamado, ela não precisava ficar chamando atenção para si! 


E em sua simplicidade e humildade, Nossa Senhora continua nos ensinando, a cada trecho da Bíblia. Sempre que ela aparece, ou que se pronuncia, nos ensina uma valiosa lição; lição que aponta para Deus e não para ela. 

Na Anunciação ela nos ensina a dizer sim e a nos abrir à Vontade de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra". Nas bodas de Caná ela nos ensina a termos um coração disposto a ajudar, que se compadece da dificuldade do outro e que pede a Deus auxílio não somente para si, mas para o irmão: "Fazei o que ele vos disser". Quando se perde de Jesus e o encontra somente três dias depois, nos ensina como é sofrido ficar longe de Deus, como devemos procurá-lo sem cessar até encontrá-lo: "Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição". 

E quantas lições ela também nos ensina com seu silêncio! Maria que guardava tudo em seu coração, não reclamava, brigava ou questionava o plano de Deus, mesmo quando Simeão lhe disse que uma espada de dor lhe transpassaria a alma. Maria que ficou em pé diante da Cruz, vendo o sofrimento de seu filho e contemplando com fé, o sentido de todo aquele plano de salvação do qual ela participava. Maria que aceitou ser mãe da humanidade quando foi para casa com o discípulo que Jesus mais amava. Maria que permaneceu com os discípulos e viu a Igreja missionária nascer porque estava lá em Pentecostes; vendo que o mesmo Espírito que um dia a envolveu com sua sombra, enviava os escolhidos de seu filho a anunciar!

Maria que na história dos filhos de Deus, nunca os abandonou! Que viu a profecia do Magnificat, "Todas as gerações me proclamarão bendita", se tornar realidade a medida que crescia nos corações dos homens o carinho e respeito por ela. Ela a quem a humanidade pode recorrer na simples e profunda oração do terço e tantas outras orações. Ela que tem tantos nomes nos mais diversos lugares para gritar para o mundo que ela roga por todos, sem distinção! Ela que sempre que concede a graça de ser vista, convida-nos a olhar para Deus, convida-nos à oração, conversão e penitência por aqueles que não acreditam.

Como sou feliz por ser sua filha! Como sou feliz por contemplar em sua pequenez e sabedoria um caminho tão certo para a santidade! Como sou feliz por poder contar com a sua intercessão e saber que tudo que te peço, chega ao coração de Deus! Como sou feliz por ter esse exemplo de esperança: Sim é possível ser fiel! Sim é possível viver na Vontade de Deus! Sim é possível manter os olhos fixos no Senhor mesmo nas horas mais difíceis!

Isso tudo a Senhora me ensinou, e tenho certeza que continuará me ensinando e rogando por mim até a hora da minha morte, porque assim a Igreja te pede em oração, e sendo mãe de toda Igreja como não atenderia?  Maria: Minha amiga, minha mãe, minha professora, meu exemplo... Como é bom saber que Deus em Sua infinita bondade e compreensão sobre o coração humano, me permitiu olhar para a Senhora e te chamar de minha. 


"Rogai por nós santa mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém!"


Imagens de::: Basilica of the National Shrine of the Immaculate Conception / Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição - EUA

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Aspirações

Achou que era tempo propício para aspirações!

Como quem diz: "e assim seja", pegou uma caneta e um papel, sentou-se e resolveu registrar tudo... Algum tempo depois, menos entusiasmo, mais ansiedade, papel ainda em branco. Mais tempo, papel amassado no chão, semblante preocupado, pernas inquietas. Pouco depois, outra folha de papel, olhar determinado e confiante. Hora depois, medo, feição triste e olhos mareados. Resolveu deixar para o dia seguinte, mas comprometeu-se a não desistir.

Deitou-se, mas não conseguia dormir; somente pensava nas aspirações. Não entendia como conseguia pensar tanto em algo que não sabia o que era. Se pensava nelas, era porque existiam, e se existiam porque não conseguia escrevê-las? Não fazia o menor sentido, ao menos era o que parecia.

Começou a pensar no que tinha, no que era real, no que gostaria de manter. Com as mãos atrás da cabeça, olhava para o teto como se nele estivesse projetado um bom filme, o melhor de todos! Pensava, pensava, pensava e um riso discreto, mas satisfeito podia ser visto em seu rosto. Sentiu-se bem, sentiu-se uma pessoa privilegiada e abençoada!

Resolveu usar daquele "filme" para encontrar suas aspirações, afinal de contas, seria natural aspirar ao que era semelhante ou complementar ao que já era real e bom... Algum tempo depois viu que se enganara mais uma vez. Cochilou, olhou o relógio, ainda madrugada. Tentou voltar a dormir, mas não dava! Por que tinha inventado aquela 'bobagem'? 

Com um certo arrependimento, pensou em outra estratégia, já que dormir não ia mesmo... Começou a pensar no que não tinha, no que não era real e no que não gostaria de manter. Assistiu outro "bom filme" em cartaz naquele teto. No final concluiu, em choque, que ainda não conseguia definir muita coisa e ainda não estava com sono.

Acabou vendo como aquilo que não tinha e que era totalmente diferente da sua realidade parecia extremamente interessante! Achou estranho, porque sabia que amava o que tinha. Além disso, aspirando àquilo que era totalmente diferente, não somente optava por algo que não era complementar, como também colocava em risco o que já tinha. Que loucura!

Como é que abrir mão do que era bom e real poderia parecer atrativo? Não era dessas pessoas imprudentes e ingratas que consideram realidades e relações como coisas descartáveis, pelo menos assim achava. Supondo então que aspirasse ao novo, ao que não era complementar à sua realidade, que ao contrário, modificava tudo; começou outro filme...

Mas esse durou pouco, pouquíssimo, porque não tinha ideia do que imaginar; tudo parecia incerto. Digamos que viu somente a sinopse, e essa despertou-lhe curiosidade. Meio desconfortável, imaginou mais uma vez como aquilo afetava tudo que conhecia, tudo que amava... Concluiu que aspirações podiam ser perigosas! Pensou de novo como eram confusas as coisas a que aspirava, como eram diferentes e, às vezes, até opostas umas às outras...

Já sabia o que fazer! Levantou-se, pegou o papel em branco e escreveu aquilo que já tinha decidido há tempo: "não desistir". Isso sim era grande aspiração! Indicava apenas um passo nesse caminho, que considerando ambos "filmes", certamente não seria movido pela inércia; mas por escolhas, construções e desconstruções, mais passos, saltos, desvios, corridas...

Olhou para o papel e sorriu! Olhou mais uma vez, e o olhar se perdeu na imensidão daquilo que se desenhava; os olhos brilharam com as possibilidades e também com as lágrimas que queriam sair. Mas por enquanto, já havia descoberto uma importante aspiração. Colocou o papel na mesa, voltou para a cama e dormiu rápido dessa vez.